Wagner Borges 108



O Caminho do Guerreiro





Por Nathalia Leite

Para mim, o mundo é assombroso porque é estupendo, assustador, misterioso, insondável; meu interesse é convencer você a tomar ciência de que está aqui, neste mundo maravilhoso, neste deserto maravilhoso, neste tempo maravilhoso. Quero convencer você a aprender a tornar cada ato importante e válido, já que vai ficar aqui por um curto espaço de tempo. Na verdade, curto demais para conhecer todas as maravilhas que nele existem." (Dom Juan, em trecho extraído de 'Viagem a Ixtlan', de Carlos Castañeda)



O Caminho do Guerreiro

Foi no início da década de 6O, quando os hippies norte-americanos começavam a colocar flores nos cabelos e o fenômeno da contracultura começava a aclamar a chegada da Era de Aquário. Nessa década, que foi um dos períodos mais marcantes da história contemporânea, surgiu um homemque difundiu idéias até então inconcebíveis pelo sistema social vigente, e que só encontraram espaço para sepropagar graças à ruptura dos padrões sociais - Carlos Castañeda - Certamente, um dos maiores precursores da new age tribe.


A juventude da época não estava interessada em dar continuidadeao velho ideal do "sonho americano", que pregava o "sucesso a qualquer preço" e uma casa confortável com todos aqueles "inutensílios" domésticos. Para muitos, a atmosfera era de inquietação e aversão ao modo capitalista de vida, responsável por guerras como a do Vietnã. A "estranha realidade" indecifrável e impalpável de que Castañeda falava, veio ao encontro da intensa busca pela liberdade total, pelo prazer contínuo, pelos estados alterados de consciência, e pela espiritualidade ligada a culturas antigas. Na verdade, o mundo estava de braços abertos para acolher aqueles que propusessem uma alternativa ao sistema.



O Divisor de Águas

No verão de 196O, o antropólogo Carlos Castañeda, da Universidade da Califórnia, foi a Nogales, no Arizona, colher informações para sua tese de pós-graduação sobre o uso de ervas medicinais e psicotrópicas por tribos mexicanas. Lá, mais precisamente num ponto de ônibus, conheceu um velho índio yaqui pertencente a uma antiga linhagem xamânica do México. O feiticeiro, que se auto intitulava Dom Juan Matus, viu em Castañeda um discípulo, iniciando-o numa jornada assustadora e arrasadora pelos mistérios de outras dimensões.


Pouco se sabe de concreto sobre a história pessoal de Castañeda até aquele encontro, uma vez que ele mesmo engendrou um grande esforço para conseguir apagá-la, a pedido de seu mestre. Alguns lhe atribuem origem peruana, enquanto ele próprio disse que nasceu no Brasil, na cidade de Mairiporã, próxima a São Paulo, no dia de Natal, em 1935.


Ao que parece, a fazenda em que viveu durante a infância era de seu avô, e sua mãe fora uma empregada da casa. Conclusões à parte, o fato é que Castañeda costumava resumir a relação dizendo que foi fruto de um "ato sexual pobre" que, segundo ele, o fez nascer com uma "escassez de energia sexual". Afirmava e escrevia que não queria bem à sua mãe, e que oscilava entre a compaixão e o desprezo por seu pai. Pelo que escreveu em seus livros, foi um rapaz tenaz, rebelde e agressivo, que voltava contra os demais sua própria frustração familiar.


Foi, então, enviado a um orfanato na Argentina e, aos quinze anos, partiu para São Francisco, Califórnia, onde viveu com uma famlia adotiva enquanto completava o bacharelado. Em 196O, casou-se com uma norte-americana, quatorze anos mais velha que ele, mas se divorciou em 73.


Quando conheceu Dom Juan, Castañeda era como qualquer outro típico homem ocidental: escravizado pela opinião alheia, dependente dos outros, egocêntrico e cheio de inseguranças que tentava obscurecer inutilmente, ostentando uma intelectualidade acadêmica que, posteriormente, percebeu não servir para nada. Em seu primeiro encontro com o brujo (curandeiro), Castañeda recebeu um olhar desconcertante, sentindo que todas suas defesas tinham sido desativadas, o que o fez se sentir extremamente frágil. Dom Juan o induziu a questionar suas certezas mais profundas, a tal ponto que diluiu o mundo pessoal de seu aprendiz. Daí viria o porquê de se "apagar a história pessoal", para que o indivíduo se liberte da "prisão da personalidade" e da importância auto-imbuída e possa mergulhar tranqüilamente pelo infinito - o nagual.


Dom Juan dizia que "ser impecável significa pôr sua vida alinhada de modo a apoiar suas decisões, e então fazer muito mais que o seu melhor para realizar estas decisões". Para isso, ensinava Castañeda a se desprender do ego, que faz as pessoas "pseudo-agirem", isto é, viverem em função do reconhecimento social.



O Mescalito e a Erva do Inferno

Castañeda contava que, quem de fato o havia escolhido como discípulo, tinha sido Mescalito, uma entidade que habitava o peiote. Sob a orientação de Dom Juan, Castañeda experimentou extraordinárias alucinações através do consumo do peiote, de cogumelos mágicos e da datura - a figueira-do-inferno. Suas experiências com as plantas psicotrópicas foram relatadas em seu primeiro livro, A Erva do Diabo, que teve repercussão imediata entre a geração,flower power. Os hippies já tinham como referência o papa do LSD, Timothy Leary, e, antes disso, Aldous Huxley, autor de As Portas da Percepção e Admirável Mundo Novo.


Durante esses "transes", Castañeda afirmava que podia se transformar em corvo, lutar contra feiticeiras poderosas, conversar com lagartos, penetrar em outras dimensões, e ser instruído por Mescalito sobre a "maneira adequada de viver". Em seus livros, ele explicava que essas plantas eram utilizadas apenas para quebrar a corrente de interpretações que formam a realidade objetiva; elas promoviam um estado de abstração pura, no qual todas as construções mentais que dão origem ao mundo do dia-a-dia desapareciam.


No entanto, ao contrário do que muitos pensam, Castañeda não fazia apologia do uso dessas "plantas sagradas", que só poderiam ser consumidas com o auxilio de um guia. Em entrevista à revista Veja, em 1986, Castañeda disse que "Dom Juan usou psicotrópicos e plantas alucinógenas como um auxílio aos ensinamentos. Uma vez atingido o objetivo, estes veículos se tornaram desnecessários". Navegar em outras dimensões, ele dizia, pode trazer revelações atemorizantes, cujos efeitos poderiam ser devastadores para a psique humana. Castañeda contou que, em suas primeiras experiências, tinha a certeza de que sem um guia teria perdido o caminho de volta à realidade consensual. Disse ainda que, se uma pessoa interrompe acidentalmente a corrente do bom senso e não consegue refazê-la, torna-se psicótica. O bruxo, explica Castañeda, consegue "viajar" voluntariamente e adquirir novas compreensões sem perder os parâmetros do mundo consensual. A "loucura controlada" é o que permite ao feiticeiro adaptar seus vastos conhecimentos à vida prática, pois todos eles só são válidos se forem pragmáticos, alegava Castañeda.



Castañeda e a Tensegridade

Castañeda adaptou uma série de movimentos corporais dos antigos xamãs mexicanos, à qual deu o nome de Tensegridade. Esses movimentos, realizados durante os transes psíquicos dos xamãs, foram descritos em seu livro Passes Mágicos.


Conta Castañeda que, quando os feiticeiros entravam em estado de profundo transe, começavam a perceber os outros homens como "bolas lurainosas", com um ponto de brilho muito intenso à altura das omoplatas. Perceberam que esse era o ponto para o qual a energia universal convergia, penetrando nos seres humanos na forma de informações apropriadas à nossa raça; ali acontecia a interpretação dessa energia, que é então incorporada ao nosso sistema cognitivo.


Por isso, esse ponto foi chamado de "ponto de aglutinação", e essa capacidade de vislumbrar a energia tal como ela flui naturalmente do Universo foi chamada de "visão".


Nesses estados alterados, os xamãs praticavam intuitivamente contínuos movimentos corporais, e percebiam que eles lhes davam um grande bem-estar físico e espiritual.


Assim, quando voltavam de suas vivências, começavam a organizar esses movimentos em séries. Passaram a ensiná-los e ritualizá-los de maneira muito criteriosa e sigilosa, apenas para os iniciados, com o objetivo de expandir a consciência.


Castañeda e suas companheiras - Carol Tiggs, Florinda Donner-Grau e Taisha Abelar - que também foram discípulas de Dom Juan, resolveram sistematizar e mostrar os "passes mágicos" ao mundo, contrariando as recomendações do mestre. Dessa forma, a tensegridade consiste numa série de movimentos, respirações e visualizações que visamao redirecionamento da energia latente no ser humano, de modo a equilibrar as funções do organismo e integrá-lo ao espírito.


Existem, ainda, alguns grupos de praticantes da tensegridade espalhados pelos Estados Unidos, e também outros em cidades brasileiras.



O Tonal e o Nagual

Castañeda definia o tonal como uma espécie de coleção de todas as memórias e informações contidas no consciente, formas de interpretação que têm relação com a cultura. Seria como uma ilha na qual estão presentes todas as coisas que podem ser nomeadas.


Já o nagual seria o oceano indizível existente em torno da ilha, as infinitas possibilidades, uma espécie de silêncio absoluto. Para Castañeda, a cultura ocidental não admite elementos que não se enquadrem no senso comum, na "ilha-tonal". Segundo ele,"a educação formal e informal - ou seja, aquela que é produto daintegração cultural - do homem ocidental não dá margem a nada estranho ou diferente do consenso social. Aquilo que está fora da norma do nosso bom senso é considerado anormalidade".


De tato, as duas realidades de que Castañeda falava não estão separadas uma da outra. Elas se unem para compor a totalidade, embora a maior parte da humanidade só consiga "perceber" a realidade palpável, objetiva e visível. Os xamãs do antigo México, afirmava Castañeda, eram capazes de compreender a causa primária da manifestação universal e sua força motriz - a qual chamavam de Intento. "Dom Juan dizia que quem organiza as idéias que vêm da fonte não é o xamã, mas o Intento. O xamã é, simplesmente, um condutor impecável", disse Castañeda, em entrevista à revista chilena Uno Mismo, em 1997.


O escritor sustentava que, para atingir a impecabilidade do Guerreiro, é necessário abandonar toda importância pessoal, e tornar-se consciente de que o caminho a seguir é solitário e individual; não diz respeito a mais ninguém. Dom Juan costumava dizer a seu aprendiz que "num mundo onde a Morte é a caçadora,não há tempo para arrependimentos ou dúvidas, apenas para decisões".


"Dom Juan me ensinou a viver para o agora", disse Castañeda, "a encarar a minha morte como um fato inevitável e existente em minha vida. O conceito de morte deve ser encarado como uma realidade. Ele me ensinou que, se eu me considerasse como morto, nenhuma das minhas ações teria importância pessoal, e com isso eu poderia mudar; mudanças poderiam ser feitas e tarefas ser cumpridas".


Ele dizia que os homens ocidentais não aprendem a ser responsáveis durante a infância e que, por isso, crescem infantis. Seu maior intuito, que acredita ter alcançado, era o de deixar de ser "criança-profissional" e se tornar "guerreiro-pirata". O guerreiro seria aquele que vive impecavelmente de acordo com aquilo que sente, e é imprevisível porque pode mudar de direção e seguir outro caminho a qualquer momento, se sua intuição assim o quiser. Dom Juan dizia: "Todos os caminhos são iguais. Eles não levam a lugar algum".


Castañeda morreu de câncer hepático, no dia 27 de abril de 98. Sua última obra foi O Lado Ativo do Infinito, publicado após sua morte e que fala, justamente, sobre a morte. Considerado pela revista Time o líder do renascimento espiritual dos EUA, o discípulo de Dom Juan participou de palestras, conferências, seminários e centros de praticantes da tensegridade, juntamente com suas companheiras.


Plagiado pelos diversos falsos gurus da atualidade, Castañeda era um homem simples, que fugia da publicidade, não permitia que o fotografassem ou gravassem suas entrevistas.


Por muitos anos, ele esteve "desaparecido do mapa", vivendo sob falsa identidade, isolado de seus amigos e do público, atitude que foi interpretada por alguns como "estrelismo" e, por outros, como "sabedoria". Desde o seu aprendizado com o feiticeiro Dom Juan até o fim de sua vida, Castañeda empenhou-se em trilhar o único caminho que, para ele, tinha um coração: o caminho do guerreiro.



Tonal e Nagual

Em certos rituais xamânicos (também chamados de Rodas de Cura), um dos círculos, feito de pedras, é cortado por dois eixos, resultando em quatro direções: os pontos-cardeais.


O eixo tonal é o Norte-Sul, que equilibra a sabedoria e a inocência, e o eixo nagual é o Leste-Oeste, que oferece as ferramentas extraordinárias para se funcionar entre a ilusão do corpo e a iluminação do espírito.


O ritual representa a caminhada do ser humano, que se inicia no Leste, onde tudo se encontra em plena Unidade. Segue, então, em direção ao Sul, para se defrontar com as emoções, porque tudo se divide em opostos; depois, para Oeste, afim de aprendera reconciliar e unir os opostos; segue para o Norte, onde encontra sua direção e seu propósito para, finalmente, chegar ao Centro, à Iluminação.


Sendo assim, Castañeda acreditava que a vida é conduzida por um fluxo universal, e que a única coisa que cada um pode fazer é expandir a consciência de tal modo que perceba seu espaço e seu momento. Cada um deve aprender a viver impecavelmente a dança das mudanças.



Nota de Wagner Borges

Extraído da Revista Sexto Sentido, Número 34, Páginas 6-10.



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Nota de Euro Oscar

Postado por: Admin (o próprio Wagner Borges) em sexta,
14 de Março de 2003 às 11:51, no seu site www.ippb.org.br

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