REVISTA AMALUZ - 101



O ZUMBIDO INTERIOR - 2

Ken Page e Simon Peter Hemingway



(Obs. de E.O.:Dividi o texto em
3 partes, para a INTERNET)


PARTE 2


O que eu não sabia era que os lakotas acreditam que a coruja, por eles chamada Hinhan, representa morte, chamando o nome daqueles cuja vez de morrer chegou. O espírito da coruja, Hinhan Nagi, guarda a estrada do espírito que leva à Via Láctea.


Os viajantes que não estavam prontos para a viagem ela lançava de volta à Terra, onde eles se tornavam fantasmas errantes. Antes do fim do dia, esta história adquiriria um tipo de sinistra ressonância para mim.


Quando passamos o local de piquenique abandonado coberto de neve, a trilha sem mais nem menos desapareceu. Olhava ora Jimmy, ora Mario, em busca de pistas, mas eles continuaram a impassivelmente impelir os cavalos adiante. Estávamos seguindo um rio até o Lago Azul em vez de tomar a trilha habitual por causa do tempo.


Sem dúvida, ninguém mais tomava a rota do rio há muito tempo. A trilha estava bloqueada em vários pontos por pinheiros caídos que obviamente estavam ali desde o inverno anterior. Tivemos de cruzar e voltar a cruzar o rio vezes sem conta para nos desviar das árvores, e a cada vez que o fazíamos ficava cada vez mais difícil retomar a trilha na neve.


Meu casaco de baixo estava se transformando numa cara esponja de penas e as calças jeans de Mario estavam escuras até os joelhos por causa da neve derretida. As escarpas do desfiladeiro no qual nos encontrávamos erguiam-se cinzentas e agourentas dos dois lados como os muros de uma prisão, à medida que os cavalos pateavam de um lado para o outro do rio raso.

Finalmente, a trilha pareceu desaparecer por completo e fizemos uma parada no leito do rio para conferenciar como cães de caça contrariados. A respiração dos cavalos produzia um vapor tênue. Pensei na água que passava por suas patas e como era impelida para cima por sua energia e como cairia novamente em forma de chuva, acabando por encontrar seu caminho de volta à sua mãe, o mar.


Meu devaneio terminou abruptamente quando senti as pernas de trás do cavalo darem um grande pulo debaixo de mim. Perscrutei acima. A trilha, pelo que parecia, subia direto até o aterro. Não via Jimmy em lugar nenhum.


Fitei apreensivo por cima do poncho de Mario, minhas juntas brancas agarrando a sela. Uma linha sinuosa de círculos cinzentos sobre a neve dava conta do progresso de Jimmy, traçados mais longos mostravam onde o cavalo escorregara na rocha molhada e lisa por baixo da neve. Ele já tinha chegado ao cume do outro lado do rio e se perdera numa curva entre as árvores, mas nosso cavalo estava empacando. O cavalo de Jimmy tinha escorregado, embora carregasse uma carga equilibrada, com apenas metade de nosso peso.


Mario grunhiu, impelindo o cavalo para frente com as pernas. Ele tremia embaixo de nós, retesando cada músculo, esticando-o como uma corda de arco num esforço para fazer com que parássemos de escorregar para trás à medida que seguíamos aos trancos e barrancos nosso caminho acima na lateral do aterro. Olhei nervosamente lá trás a silhueta escura do rio no ponto em que ele cortava a neve nove metros abaixo. Mario tranqüilizou o cavalo, incentivando-o a seguir em frente outra vez. Então, foi o inferno.


O cavalo arremetia desesperadamente quando começou a escorregar para trás. Mario gritou com ele. O cavalo deu um coice para trás e então minha cabeça bateu nas costas de Mario enquanto os cascos do cavalo se agitavam em desespero contra alguma besta invisível pairando no ar diante de nós. Só sei que depois o chão era um borrão branco se precipitando na minha direção, e então eu estava descendo e rolando pela lateral do desfiladeiro. Agarrei com todas as forças um toco. Ainda inteiro e anestesiado pela adrenalina, pulei depressa para ver se Mario estava bem. Ele não estava.

Vi Mario a seis metros acima de mim, dobrado sobre o pescoço do cavalo que tremia e se agitava embaixo dele. O declive abaixo deles era íngreme e liso como um telhado de ardósia molhado. Mario se agarrava ao pescoço do cavalo e sussurrava em seu ouvido enquanto o cavalo bufava e soltava vapor pelas narinas. O animal se arremessava espasmodicamente para frente como se estivesse sendo eletrocutado, e a seguir começava a escorregar para trás sem parar, batendo impotente contra as rochas negras molhadas embaixo da neve, até que escorregou para trás, batendo na carcaça de um grande pinheiro caído que tínhamos cruzado no caminho para cima. Ficaram lá por um momento — o cavalo, o cavaleiro e a árvore — todos equilibrados como num improvável número de circo.


A árvore morta rangeu e se mexeu como um ser turbulento adormecido. O cavalo entrou em pânico e empinou. Eu o vi balançar em suas grandes e trêmulas pernas traseiras como um desses garanhões de filme, então cavalo, cavaleiro e árvore todos se separaram. Mario voou para trás pelo ar como se tivesse sido atirado de um canhão, pousando com toda violência nas rochas, neve e pedregulhos três metros abaixo de mim, e a dar cambalhotas, desapareceu da vista. O cavalo, retorcendo-se em pleno ar como um golfinho a saltar, pousou de lado com um estrondo feio e rolou, a debater-se impotente, aterro abaixo, indo terminar a se agitar e a relinchar no rio. Ouvi um estrondo baixo e o som de madeira se lascando acima de mim, então, voltei-me exatamente a tempo de ver uma mancha escura, gordurosa e lisa na neve, como se ela tivesse acabado de ser arada, e senti o impacto quando o pinheiro morto escorregou e bateu na parte de trás de minhas pernas, lançando-me para frente.


Vi-me estendendo as mãos bem a tempo de impedir que eu rachasse minha cabeça na rocha cinzenta que se projetava cruelmente diante de mim como a barbatana dorsal de um tubarão. Não senti nada. Eu deixara meu corpo para assistir a coisa toda de um local seguro bem acima do riacho.

Soube imediatamente que eu já morrera aqui numa vida passada neste mesmo lugar, naquela mesma rocha e que eu tinha escapado de meu corpo antes de ter de revivê-lo uma segunda vez. Eu me vi lutando. Meu pé estava preso no toco, e eu estava dependurado, rosto para baixo, na lateral do desfiladeiro, minha perna num ângulo impossível. Mario estava de joelhos no rio, balançando a cabeça enquanto a água fluiu por seu corpo. O cavalo acabara de se pôr em pé num esforço e cambaleava por ali em choque como um potro que não consegue encontrar a mãe.


Ouvi Jimmy xingar baixinho, ele voltara para ver o que eram todos aqueles estrondos e gritos. Então imediatamente voltei a meu corpo, dependurado indefeso sobre aquela rocha assassina, tentando parar a dor de minha perna me segurando em um ramo seco que havia sobre a minha cabeça. Jimmy foi correndo até mim e tentou virar a árvore, mas em vão. Era comprida como um poste de telefone e as raízes estavam esmagadas no leito do rio. Mario estava de joelhos na água, segurando os quadris e fazendo caretas cada vez que respirava. Jimmy foi escorregando até o rio para dar uma olhada nele, e quando Mario mostrou-lhe algo com a cabeça, ele foi patinhando na água em suas botas de vaqueiro até as raízes eriçadas da árvore que me segurava. Ele a examinou por um momento e a seguir ajoelhou-se dentro da água gelada para colocar o ombro debaixo de um ramo. Agarrou a árvore por debaixo da água e tentou com todas as suas forças erguê-la. Eu sentia a árvore se mexer, não muito, mas o bastante para ir soltando meu pé de trás do toco. Desci devagar do tronco no qual estava suspenso. Meu pé doía como o diabo, mas consegui pôr meu peso nele. Acenei para Jimmy que já estava tirando Mario do rio. Parecíamos sobreviventes de uma guerra, mas estávamos vivos.

Nós nos recompomos do outro lado do rio. Mario se mexia devagar, segurando o lado do corpo. O cavalo ainda estava tremendo. Sem caber em mim pelo que considerei meu triunfo sobre a morte e entorpecido pela excitação, todo machucado, ainda assim estava pronto para comandar a expedição ao Lago Azul. Eu sentia a energia do cristal guardado em minha mochila a me incitar. Só quando descobrimos que Mario quebrara várias costelas, percebi que fôramos derrotados.


À medida que a adrenalina arrefecia, o frio se insinuava. Voltamos pelo desfiladeiro, levando o que pareceram horas, até darmos com uma pequena clareira onde poderíamos fazer uma fogueira. Mario pegou musgo de debaixo das árvores enquanto Jimmy fazia o reconhecimento dos arredores, quebrando madeira morta seca dos ramos mais baixos das árvores. Para minha surpresa, logo dispúnhamos de uma fogueira crepitante e nos sentamos a seu redor como se estivéssemos sendo cozidos em vapor, como batatas assadas, trocando histórias e dividindo o pão francês e o queijo que eu trouxera de São Francisco, o único alimento que tínhamos.


Eu estava preocupado, achando que nosso acidente fosse um tipo de presságio. Jimmy e Mario balançaram as cabeças ao mesmo tempo. Eles viam a resistência como um sinal positivo, como uma rachadura numa arvorezinha, a mostrar que ela será grande. O que estávamos fazendo era muito importante, eles garantiram. Caso contrário, por que o Criador teria julgado conveniente testar nossa determinação daquela maneira?

Mario caminhou a maior parte dos 16 quilômetros até o rancho de Jimmy, alegando que estava começando a sentir-se mais firme. Quando lá chegamos, às oito horas, estava chovendo e fazia muito frio. Não havia sinal da namorada de Jimmy nem de sua caminhonete pick-up. Desarreamos os cavalos e nos dispomos a andar os 4,8 quilômetros de volta ao Pueblo. A namorada de Jimmy apareceu derrapando numa nuvem de fumaça azul depois de 1,5 quilômetro.


Fiz as malas rapidamente no trailer, com medo de ficar retido pela neve em Taos, despedi-me, fechei a grande porta de meu Lincoln alugado e, então, instantaneamente, estava de volta ao mundo que tinha deixado, um mundo que Jimmy e Mario nunca tinham conhecido. Passei por Taos escutando música suave no rádio enquanto o aquecedor estalava e zumbia e os limpadores perseguiram os imensos flocos de neve de um lado a outro do pára-brisa.


Eu não fazia idéia do que tinha dado errado em minha missão ou por que tinha quase nos custado nossas vidas. Ainda não sei hoje. Talvez o espírito da coruja, Hinhan Nagi, tenha nos achado incompetentes e nos tenha lançado montanha abaixo por causa de nossa impetuosidade. Os homens Sioux usavam tatuagens espirituais secretas nos pulsos que, segundo se dizia, garantiam a bênção de Hinhan em sua jornada rumo à Via Láctea. Tudo o que eu tinha era minha determinação. Eu sabia que voltaria ao Lago Azul, esperando até ouvir aquela coruja chamar meu nome, se fosse preciso, e estava levando comigo aquele cristal.

A BÊNÇÃO DA CORUJA

Alguns meses depois de minha primeira viagem ao Lago Azul, percebi que estava tendo dificuldade para dormir. Eu começara a ouvir um tipo de zumbido entre os ouvidos.Tentei ignorá-lo no princípio, pensando que poderia ser algum sinal inicial de enfermidade mental — o fracasso de meus negócios estava me causando muita tensão na ocasião. Tentei tocar música quando ia para a cama, uma solução da qual minha esposa não gostou, e quando isso não funcionou, tentei desligar meu rádio relógio.


Quando sugeri tentarmos desligar a chave geral de força da casa, minha mulher me olhou como a dizer que sem dúvida eu estava à beira da loucura. Talvez estivesse.


"Você tem razão," afirmei. "Vou só olhar lá dentro mais uma vez." Ela olhou para cima. Eu já a brindara com o espetáculo de rastejar de quatro de cueca pela casa, aplicando o ouvido às paredes e à mobília como um cachorro inquieto.


Sentei-me na cama como vira gente da meditação transcendental fazer e purifiquei minha cabeça de pensamentos estranhos. Instantaneamente o zumbido ficou mais alto. Sem dúvida, se eu estava ouvindo o som, estava também percebendo-o em outros níveis. Quanto mais me concentrava nele, mais alto ficava. Abri os olhos depois de alguns minutos e caminhei diretamente à caixa de vidro que guardava o cristal pelo qual eu quase morrera. O próprio cristal estava criando um tipo de zumbido baixo e pulsante. Estendi a mão na direção dele, e então tirei a mão em choque.


O cristal estava quente!

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FONTE DO TEXTO

(http://www.amaluz.com.br). Publicado originariamente na revista Amaluz, que não mais tem sido editada, embora fosse uma ótima publicação. Fazemos votos de que possa renascer, com a mesma qualidade de antes.
Extraído de The Traveler and the End of Time (O Viajante e o Fim dos Tempos)




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