REVISTA AMALUZ - 102



O ZUMBIDO INTERIOR - 3

Ken Page e Simon Peter Hemingway



(Obs. de E.O.:Dividi o texto em
3 partes, para a INTERNET)


PARTE 3


Sentei-me na cama para pensar nisto por um momento. Incapaz de chegar a conclusões firmes, peguei um par de luvas e uma pá na garagem, cavei um buraco raso debaixo de uma árvore no meu quintal, e enterrei o cristal, com a ponta para baixo. Isso deu um jeito no zumbido infernal, mas o próprio cristal permaneceu obstinadamente alojado em minha consciência. Eu pensava nele freqüentemente e em horas inconvenientes, como uma antiga paixão ou um amor proibido. Eu queria concluir minha missão para poder pensar em outra coisa, mas ainda havia mais obstáculos a superar.


Em primeiro lugar, o Lago Azul ainda estava coberto de neve. A rota do rio estava praticamente intransitável sob as melhores condições, e a única alternativa era uma passagem de quatro quilômetros entre duas montanhas. Não era possível chegar lá em cima com um grupo de cães. Além disso, estava claro o fato de que o Conselho de Guerra não queria que eu fosse para lá. Não era nada pessoal. Não queriam que ninguém que não fosse membro da tribo fosse lá. O Espírito do Norte cuidava do lago todo o inverno, mas quando a neve derretia, assumiam os guardas armados. Montavam guarda todo o verão, até a volta da neve os render, e atiravam nos intrusos que lhes aparecessem pela frente. O lago era guardado também em outros níveis.


Eu falara com Jimmy algumas vezes durante o inverno, e ele me assegurou que estava mais a fim que nunca de me ajudar a levar o cristal para casa no Lago Azul.Mario também estava, mas ainda estava se recuperando de sua experiência de única bala humana de canhão de Taos. Nós dois acreditávamos que o que estávamos fazendo seguia a ordem divina e o fluxo das coisas e que um portal seria aberto dessa forma para nós, mas que o senso de oportunidade poderia ser crucial.

No final do verão de 1987, Jimmy finalmente me chamou. Estava na hora. Todo o Pueblo seguia para o Lago Azul uma vez todos os anos para realizar uma de suas cerimônias mais importantes.Teríamos uma pequena oportunidade logo depois que eles partissem. Jimmy tinha verificado e o caminho estava livre.


Nem se fosse de Concorde, o vôo para Albuquerque teria sido rápido o bastante para mim. Eu queria ir a toda pressa para Taos também, mas me lembrei da conversa ao pé da fogueira que tivera com Jimmy e Mario sobre resistência e em vez disso escutei música alta. Logo a rodovia elevou-se do deserto como a coluna de um grande gato a se espreguiçar, e eu conseguia sentir a mudança de vibração à medida que me dirigia às montanhas. Santa Fe veio e se foi e então eu estava em Taos.


Trinta minutos depois, eu via a casa móvel desbotada de Jimmy agigantando-se em meu pára-brisa. Jimmy abriu com os ombros a porta torta de dentro, como numa invasão policial ao contrário, e éramos novamente dois velhos amigos, trocando histórias de guerra e nossos sonhos para o futuro.


Jimmy me falou sobre um amigo seu, Fred Hopper, que por sua vez lhe contara de três xamãs que tinham vindo desde o México. Os xamãs, disse Jimmy, tinham construído uma roda medicinal na lateral de uma colina que dava para o Pueblo. Fred estivera lá e dissera a Jimmy que era uma bela cerimônia, que todos eles ouviram sons e viram luzes dançantes em cima dos cristais que os xamãs tinham usado. O propósito da roda medicinal, disseram os xamãs, era se preparar para a chegada de um cristal. Jimmy abaixou ligeiramente a cabeça para me fixar com um olhar significativo. Fiz que sim com a cabeça. Ele não contara a ninguém o que estávamos fazendo, mas parecia que, de alguma maneira, estes anciãos que mal falavam inglês sabiam.

Todos eles vieram reunir-se ao redor do trailer naquela noite. Os xamãs eram seres humanos encantadores, sem idade e no entanto muito velhos. Vestiam trajes de camurça adornados com refinados enfeites de contas, sorriam muitas vezes e escutavam com muito cuidado. Desembrulhei o cristal e o segurei mostrando-o a eles. O pôr-do-sol a se derramar janelas adentro fazia parecer que eu estava segurando uma chama entre as mãos. Os olhos dos velhos xamãs eram grandes como pires. Este era o cristal, eles me explicaram em mau inglês. Foi por esta razão que tinham viajado ao Pueblo. Eu sentia o cristal palpitar enquanto o segurava. Ele nos reunira a todos. Todos tínhamos viajado milhares de quilômetros pensando que estávamos viajando sozinhos, mas estivéramos juntos o tempo todo.


Desanimei um pouco quando olhei meu relógio. Eu planejara ir a Taos naquela noite para me abastecer para a viagem ao Lago Azul. Tinha ouvido falar de histórias sobre Jimmy cozinhar e não queria me arriscar, mas quando todos os nossos convidados se foram estava muito tarde. Jimmy empurrou a cadeira para atrás, espreguiçando-se. "Melhor dar uma olhada na bóia," disse ele, sorrindo.


Fiz uma exibição de espreguiçadas e bocejos, e então lentamente me pus a caminho da cozinha. Encontrei Jimmy fitando uma panela fumegante que parecia conter água de pântano. Espetou um garfo grande na água, e então tirou algo parecido uma enorme enguia cinza, em busca de minha aprovação. Olhei a coisa, tentando não parecer horrorizado. Jimmy a deixou cair de volta na panela, a água esguichou. Balançou devagar a cabeça, cheirando audivelmente o vapor para me mostrar como era bom. Ele só disse: "Língua de boi. Bom."


Meu estômago se enrolou todo como um porco-espinho. Pensei no pão e queijo que planejara comprar em Taos, onde eu os colocaria na minha mochila e como seria partir pão francês morno a quatro mil metros de altura. Obviamente, racionalizei, a seriedade de minha missão exigia que eu jejuasse.

Levantamo-nos antes da aurora na manhã seguinte. Mario estaria conosco somente em espírito este ano, assim como meu Tio Drunvalo. Desta vez, começamos seguindo a rota do rio, e então saímos dela para subir a uma passagem íngreme próximo do nível de quatro mil metros. Embora fosse um lindo dia e a única neve que vimos estivesse nos níveis mais altos, tentei ficar atento ao que me cercava o máximo possível, no caso de encontrarmos mais alguma "resistência." Logo os juníperos e os pinheiros deram lugar a álamos balouçantes, que deram lugar a absolutamente nada à medida que subíamos acima da linha das árvores e finalmente atingimos a selada entre montanhas que se dividam de cima abaixo. Abaixo de nós estava o Lago Azul, tão longe que não parecia maior que uma xícara de café, resplandecendo um belo azul iridescente como se estivesse repleto de líquido turquesa.


O caminho abaixo era tão íngreme que tivemos de desmontar e conduzir os cavalos. O lago lentamente aumentava à nossa frente, e com isto crescia minha expectativa. Eu estava prestes a concluir algo pelo qual todos tínhamos arriscado nossas vidas, e parecia que só um terremoto poderia nos deter agora.

Quando chegamos ao lago, fiquei imediatamente impressionado por uma pedra chata grande que se projetava do lago como uma pequena ilha. Era o lugar para realizarmos uma cerimônia, e depois de guardarmos os cavalos, comecei imediatamente a subir à sua ampla superfície. Primeiro peguei o próprio cristal e cuidadosamente o desembrulhei. Mario tinha nos dado de presente penas de todos os diversos tipos de pássaros, embrulhadas em cascas de milho, e Jimmy tinha embrulhado o cristal com todas as penas e cascas de milho. Por cima ele amarrara um pedaço de couro com fitas de couro. Coloquei o presente ao lado da bolsa de camurça branca que minha boa amiga Mary Schlosser, cujo Pueblo se chamava Flor do Berço, tinha me dado. A bolsa estava cheia de fubá sagrado, sagrado porque foi moído por virgens. Fiz um círculo com vários fetiches, as penas de Mario, outros cristais, colocando o quartzo da Smoky Mountain de Clear Lake no centro. Então salpiquei uma pitada do fubá em cada uma das quatro direções como Mary tinha me ensinado. Depois que terminei minha cerimônia, Jimmy cantou canções tradicionais de Pueblo e dançou. Em seguida ficamos cerca de uma hora rezando. Depois da oração nos olhamos. Estava na hora.


Jimmy ficou de pé no alto da pedra e eu fiquei de pé atrás dele com a mão em seu ombro esquerdo. O lago, que estivera liso como vidro quando começamos nossa cerimônia, estava ondulado agora. As ondulações se abriam em largos círculos a partir de um vórtice central. O zumbido que eu ouvira lá em meu quarto em Clear Lake estava audível novamente agora e ficando sempre cada vez mais alto. Jimmy levantou o braço e atirou o cristal. Ele formou um arco por cima da água, captando o Sol para um instante passageiro antes de cair diretamente no centro do vórtice.


Instantaneamente, Jimmy e eu fomos atingidos por uma explosão de energia que parecia um vento com a força de um furacão. Ao mesmo tempo, senti uma mudança de energia dentro de mim. Sentia como se estivesse sendo afinado uma oitava acima, como um piano. Pude sentir a energia em meu chakra do coração se deslocando a meu chakra da garganta. Ouvi uma tosse atrás de mim e me voltei. Jimmy tinha caído ao chão e estado rolando e segurando a garganta. Fiz menção de me aproximar, mas, com um aceno, fez sinal para eu ficar longe. Fosse qual fosse a mudança de energia que eu sentira, ela desencadeara sua asma. Voltei-me de novo para o lago. As ondulações que víramos quando começamos eram agora ondinhas; o zumbido que eu ouvira estava muito mais alto. Decidi, tolamente, tentar elevar ainda mais a energia, ao nível do terceiro olho. Ajoelhei-me e murmurei um tom de freqüência igual à que vinha do lago. Então lentamente elevei a freqüência.

Só me lembro de estar estirado no chão próximo a Jimmy. Assim que tentei elevar o diapasão do som, senti uma intensa dor repentina em meu terceiro olho. Senti exatamente como se alguém tivesse me atirado uma faca. Levantei a cabeça o suficiente para olhar Jimmy. Ele me olhou com o canto do olho e sorriu, tentando tomar fôlego. Nós dois parecíamos ter acabado de cair de um trem. Simplesmente fiquei lá escutando o lago zumbindo, sentindo o Sol quente bom no rosto e escutando Jimmy tentando sorver um pouco daquele ar rarefeito de montanha para recuperar a voz.


Finalmente, ambos nos recuperamos e conseguimos guardar tudo e voltar. Jimmy disse algo sobre parar para comer, mas para ser sincero, eu meio que esperava que ele se esquecesse — eu poderia passar sem vê-lo fatiar uma grande língua de boi cinzenta fria. Quando voltamos à passagem, saímos da trilha que tínhamos tomado na ida e seguimos um riacho raso até uma clareira onde a gente do Pueblo acampava durante suas visitas ao Lago Azul. Como um mágico, Jimmy gesticulou na direção de um grande saco de lixo verde pendurado em cordas entre duas árvores. Era a despensa na qual o povo nativo mantinha sua comida protegida dos animais. Jimmy desamarrou a corda e abaixou o saco de lixo ao chão. De dentro, tirou um pacote embrulhado em papel alumínio, que me deu. Dentro havia um pão que a mãe dele assara na véspera e um pedaço de queijo fresco. Fiquei extático. Era exatamente o que queria. Enquanto eu partia o pão, soube que, apesar de todos os milhões que perdera, nunca mais me faltaria nada. O pão e queijo, a 25 quilômetros de qualquer lugar, era para mim prova absoluta de meus poderes de manifestação.


Jimmy e eu devoramos nosso almoço, rindo como duas crianças bêbadas em meio a ruínas. Algo muito grande acabara de acontecer no Lago Azul. Infelizmente, nenhum de nós fazia idéia do que era.

Seguimos o rio de volta ao rancho de Jimmy em vez da trilha íngreme da ida. Se possível, o caminho parecia ainda mais coberto de vegetação depois de uma estação de tempestades de inverno do que quando tentamos segui-lo no ano anterior. Fazia muito tempo que alguém estivera ali com uma serra. Havia árvores caídas por toda parte, obrigando a desvios constantes. Depois de aproximadamente três horas abrindo nosso caminho pela vegetação montanha abaixo, chegamos ao local onde ocorrera o acidente no ano anterior. Ali, quase exatamente sobre a pedra onde eu quase morrera, vi um grande crânio de vaca no ramo de uma árvore. Não soube dizer se estava lá em nossa viagem anterior, mas parecia ter estado ali sempre.


Levantei-me nos estribos e tentei soltar o crânio da árvore quando passei por baixo, mas não se mexia. Quanto mais eu puxava, mais nervoso ficava meu cavalo. Olhei a rocha lá embaixo, larguei o crânio e continuei em frente. Outra lição sobre desprender-se, decidi.


Por volta das sete horas, tínhamos retornado ao local de piquenique onde a trilha se alargava, permitindo a passagem de um jipe, a cerca de 1,6 quilômetro do início da trilha. Naquele ponto, vi algo que quase me fez cair do cavalo. Dos dois lados da trilha enfileiravam-se os fantasmas de centenas de americanos nativos. Encaravam Jimmy e a mim, os rostos brilhando de alegria e gratidão. Senti meu próprio coração cantando em ressonância com eles. Eu sabia que o que tínhamos feito era grande, mas agora sabia que era realmente grande, a ponto de merecer uma parada. Meus olhos se encheram de lágrimas enquanto passávamos lentamente por eles. Havia tanto homens como mulheres, e todos estavam vestindo trajes cerimoniais. Olhavam para mim como se eu fosse alguém, como se tivesse propósito no mundo, como se eu não fosse o esboço traçado a giz do homem que pensei ter me tornado.

Nos anos seguintes, recebi cada vez mais informações sobre o que realmente aconteceu no Lago Azul naquele dia. A última informação veio em minha última visita a Taos. Nos últimos anos, os moradores de Taos têm se queixado de um de misterioso zumbido. Um inquérito parlamentar e várias investigações científicas depois, o "Zumbido de Taos," como os jornais o apelidaram, continua frustrando os moradores. Visitei Jimmy em agosto de 1995 e nossa conversa voltou-se ao assunto do barulho que todos parecem capazes de ouvir mas que ninguém jamais conseguiu gravar.


"Você sabe o que é, não sabe, Ken,?" disse Jimmy.


Pensei por um momento. Então olhei para ele. Firme.


"É o mesmo barulho, certo?" ele disse. Fiz que sim com a cabeça lentamente. Ele tinha razão. Era mesmo. Exatamente.

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FONTE DO TEXTO

(http://www.amaluz.com.br). Publicado originariamente na revista Amaluz, que não mais tem sido editada, embora fosse uma ótima publicação. Fazemos votos de que possa renascer, com a mesma qualidade de antes.
Extraído de The Traveler and the End of Time (O Viajante e o Fim dos Tempos)




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