REVISTA AMALUZ - 44



ARQUITETURA VASTU


POR MICHAEL BORDEN



(Obs. de E.O.: Dividi o texto em
2 partes, para a INTERNET)

PARTE 1

Em fevereiro/março de 1998, viajei a Madras, Índia, para estudar o princípios da ciência Vastu aplicados à arquitetura. Por meio de meu trabalho e pesquisa nos três anos anteriores, eu tomara conhecimento de uma tradição de arquitetura sagrada que, segundo se dizia, fundamentava-se em princípios básicos das leis da natureza. Naquela época, eu fora comissionado para projetar dois edifícios que seguiam o que meus clientes chamaram arquitetura Sthapatya Védica. Pediram que eu trabalhasse diretamente sob a orientação de um projetista na Europa. Fui orientado por este projetista a criar uma planta baixa e uma planta alta seguindo certos princípios básicos de distribuição de cômodos, a seguir deveria enviá-las a ele para revisão.


O processo de projeto e revisão prolongou-se por várias semanas até chegarmos a uma construção condizente com as disposições de cômodos, incluindo dimensões muito precisas, se bem que estranhas, relativas às plantas baixa e alta. Fui instruído a insistir que as dimensões fossem integralmente seguidas à medida que se erguesse a construção, até um oitavo de polegada. Eu estava muito interessado em entender os princípios de projeto e a filosofia por trás do projeto, então solicitei mais informações ao perito em Sthapatya Védica. Para minha grande decepção, ele me comunicou que não estava autorizado a passar as informações que eu queria.


Comecei então a procurar informações sobre arquitetura Sthapatya Védica. Descobri que havia vários volumes de literatura indiana antiga, bem como moderna, dedicados ao assunto. Quando examinei os livros, achei-os bem confusos. Dei-me conta de que precisava encontrar um professor, então freqüentei um seminário de fim de semana sobre o assunto dado por um projetista da Índia, Narajan Babu. Novamente, as informações básicas em si não foram apresentadas.


Afinal achei um arquiteto na Índia que supostamente era perito nesta tradição de conhecimento. Certa noite, assisti a uma dança sagrada indiana, e na introdução da performance a dançarina nos disse que dançara numa conferência sobre arquitetura Sthapatya Védica no sul da Índia. Depois da performance, perguntei à dançarina se ela poderia me recomendar a um arquiteto especialista nessa tradição. Deu-me o nome do dr. V. Ganapati Sthapati de Madras, Índia. Fui ver o Sthapati (que significa "escultor especialista e projetista de construções") no dia seguinte. Ele me disse que estava construindo um templo no meio-oeste e visitaria o local dentro de uma semana. Tomei providências para ir ter com ele imediatamente.


Ganapati Sthapati nasceu em 1927 numa família cujos antepassados construíram o grande templo em Tanjore no século 10. Aprendeu sua arte com seu pai e tio, começando como aprendiz de escultor, passando a escultor mestre e projetista de templos. Passou 27 anos como diretor da Faculdade Estatal de Arquitetura e Escultura de Mahabalipuram, Tamil Nadu. Ele é responsável pelo ressurgimento significativo da Índia no campo da antiga arte de escultura em pedra. Depois de se aposentar em 1988, continuou a construir templos e fundou a Fundação de Pesquisa Védica Vastu para explorar as origens antigas dos artesãos de templos.


À medida que era conduzido à presença de Sthapati, reparei que os trabalhadores indianos que estavam construindo o templo tratavam o homem com extremo respeito. Nossa entrevista durou aproximadamente uma hora. Mostrei-lhe meus projetos de residências e ele riu enquanto os criticava. Disse que arquitetura era música congelada e que uma construção poderia ser uma expressão de harmonias agradáveis e poderosas.


Fez esboços em meus projetos, mencionando algo chamado purusha mandala Vastu. Falou sobre a possibilidade de uma construção ser um gerador de coerência, sintonizando os ocupantes com as leis do universo e aumentando a saúde, riqueza e bem-estar espiritual. Disse que uma construção era um organismo vivo, como o sistema nervoso humano, podendo ser projetada em ressonância harmônica com a estrutura de energia subjacente básica do universo.


Mas mais do que suas palavras, sua presença, sua confiança, seu entusiasmo e amor à sua arte me disseram que ele era um homem que vivia sua verdade. No final de nosso encontro, perguntei-lhe se eu poderia vir para a Índia estudar com ele. Pareceu um pouco surpreso, na verdade, mas me deu boas-vindas para ir.


Tomei providências para ficar em Madras durante seis semanas estudando. Duas ou três vezes por semana ele me encontrava durante a maior parte da manhã. Começou por estabelecer a filosofia fundamental da ciência Vastu. A seguir passamos à aplicação da filosofia à arte e arquitetura. Ele me fez projetar construções, residenciais a princípio, então comerciais, que seguiriam as regras gerais da ciência. Quando fui embora da Índia, ele me disse que eu dominara as regras básicas de projeto Vastu e que deveria projetar estes edifícios nos EUA. Combinamos nos encontrar novamente em 1999 durante três meses, de forma que eu pudesse desenvolver minha compreensão estudando as particularidades do projeto de templos. Retornarei em setembro de 1999.

FILOSOFIA

Ganapati Sthapati sustenta que uma figura histórica, Mayan, um arquiteto e projetista de cidades da Índia antiga, foi a fonte da ciência Vastu. Foi o autor de Mayamata Vastu Shastra (tratado sobre construção e arquitetura) e também Surya Siddhanta (tratado sobre astronomia). Estes trabalhos ainda são usados pelos estudiosos e profissionais em toda a Índia.


"Mayan era adorado como ‘Viswakarma’ por Veda Vyasa em seu Mahabharata [um dos textos sagrados mais célebres da Índia], por aí se deduz que Mayan tinha conhecimento da dinâmica do espaço, sendo capaz de aplicar a mecânica do espaço às suas próprias criações, transformando-as em pequenos universos na Terra. Tudo quanto ele era capaz de criar em termos visuais, fosse uma escultura, construção ou cidade ou plano de uma cidade, [essas criações] se comportavam como organismos vivos e pulsavam com vida....Ele foi o grande cientista da Índia que identificou e quantificou a vibração do espaço que envolve a Terra e os corpos celestes, e que habita também cada um dos objetos da natureza.


"A planta do projeto de um templo ou construção residencial é tecnicamente chamada Vastu purusha mandala, com uma malha de 8 x 8 = 64 espaços ou 9 x 9 = 81 espaços de dimensões iguais. Na terminologia arquitetônica moderna, ela pode ser considerada uma malha de energia. Estas plantas são quadrados, em termos bidimensionais, e cubos, em termos tridimensionais.


Essas duas plantas constituem a fórmula geométrica do silpi (escultor ou arquiteto) para replicar a substância sutil do universo em forma visual, material. Essa é a fórmula dada pelo Deus Viswarkarma, o criador do universo, para transformar seus próprios pensamentos em formas materiais. Essa fórmula é expressa num dizer simplista: ‘Vastu reva Vaastu,’ que significa ‘é o sutil que se transforma no concreto.’ Aqui Vastu é energia sutil e Vaastu é energia corporificada. Isto foi descoberto e posto nos textos de Vaastu por Mayan.


"A tradição científica de Vaastu considera que Shakti (energia) a tudo impregna e é a substância originadora de todas as manifestações dos fenômenos visuais e auditivos [som] do universo....Pode-se comparar este fenômeno de Vastu e Vaastu ao ouro transformado em ornamentos de ouro, atuando o silpi como o agente da transformação. Além disso, a tradição Vastu reconhece este Vastu como habitante do espaço interior de seres individuais, bem como do espaço exterior, o ser universal.


"O espaço luminoso...impregna todo o universo. É o espaço supremo no qual se encerram o tempo absoluto e a energia absoluta. É repleto de substância luminosa (vastu) composta de paramanu, as partículas diminutas de espaço...e possuindo energia. Paramanu tem basicamente forma quadrada e tridimensionalmente é cúbico. (É a matemática do Paramanu que é usada como padrão para todas as formas pelo silpi.) É...uma abstração de todos os fenômenos visuais e auditivos do universo, ou a forma suprema.


O espaço luminoso é supersensível, capaz de adquirir consciência de si mesmo e de vibrar em objetos dos quais está consciente. Esta ação faz parte de sua natureza intrínseca, [sendo] responsável pelas formas que ocorrem no espaço interior de pessoas e também no espaço exterior do universo. O espaço vibra, tornando-se forma, e é sensível o suficiente para ordenar estas vibrações em ritmos, evoluindo nas formas desejadas, ritmicamente estruturadas e esteticamente fascinantes.


"Esta força ou vibração aplicada do espaço é chamada kala. Kala significa literalmente ‘o que surge de dentro’....Em arte, kala se torna tala (ritmo medido)...A medida de kala é produzida pela dançarina ao bater o pé no chão....Tala é ritmo, um tempo-espaço bem definido....A medida de tempo rítmica produz formas musicais. As composições poéticas também são regidas pela medida de tempo...Os princípios básicos da criação de formas ligadas ao ritmo são chamados Vastu Shastras (tratado sobre arquitetura e escultura).


"O tempo é interrompido nessas criações visuais do silpi. Elas se transformam em objetos eternos a significar os atributos da realidade suprema." O que é surpreendente lembrar neste contexto é que elas são as formas (padrões geométricos) do espírito, reproduzidas em sua própria escala de tempo. São as réplicas das formas sutis experimentadas no coração. São organismos vivos que ressoam com a Realidade Suprema.


Há muitos fatores em ação na criação de uma construção alinhada com princípios da ciência Vastu. Existem textos antigos com milhares de páginas prescrevendo em detalhes as necessidades de projeto de construções de forma genérica e também suas particularidades. Por exemplo, num texto, o Mayamata, são os seguintes alguns dos títulos dos capítulos: Locais de Moradia, Exame do Local, Posse do Local, Sistema de Medidas, Orientação, Oferendas, Cidades, Número de Andares e Dimensões, Assentamento das Fundações, A Base, Dimensões de Pilares e Escolha de Materiais, Entablamento, Marcenaria.


Em minha experiência, digerir, assimilar e aplicar as informações contidas nestes textos foi uma tarefa desanimadora. Iniciei estudos com Ganapati Sthapati na esperança de que ele atuasse como intérprete e filtrasse o conhecimento para mim, e foi o que fez. Saí de meus estudos com um corpo de conhecimentos equilibrado e aplicável.

PRINCÍPIOS BÁSICOS

O regime de projeto do arquiteto Vastu segue parâmetros específicos:


Considerações sobre Orientação e Localização. A seleção do local de uma construção é um fator muito importante na arquitetura Vastu. A Terra é considerada um organismo vivo na ciência Vastu: "Os shastras Vastu referem-se esta energia contida na Terra como Vaastu purusha. Purusha significa ‘energia sutil que impregna a Terra’ e vaastu é ‘o corpo material que evoluiu a partir da energia.’...


Abstratamente, purusha nada mais é que uma substância sutil; Vastu (ou essência do universo sutil) significa ‘consciência ou percepção universal.’ A Terra é...um objeto material vivo suspenso em [um mar] de espaço e existindo como parte...do Ser Universal."


A inclinação geral do local é importantíssima. Um declive na direção leste, nordeste ou norte é considerado benéfico, tendo a situação oposta efeitos negativos sobre os ocupantes da estrutura. A partir de minha pesquisa, parece haver alguma relação com fluxos de água sobre e sob o local. Além disso, é considerada a posição da água no local ou em relação ao local, sendo o nordeste a melhor localização para uma massa de água.


"Cercar um terreno com proporções aceitáveis também é importante. A razão é que quando vastas extensões de terra são limitadas por linhas de demarcação, elas adquirem uma forma. Ou seja, o informe assume uma forma. Assim que uma forma é criada, a qualidade flui ou a forma assume uma qualidade."


O solo é inspecionado buscando-se certas características desejáveis de cor, sabor, cheiro e composição. São realizados testes. Por exemplo, um teste consiste em cavar um buraco (de aproximadamente 60 cm x 60 cm), preenchendo-se a seguir o buraco com a terra retirada. Se a terra substituída encher o buraco e se derramar em volta, esse fato recomenda muito o local.


Considera-se muito benéfico permitir que vacas pastem no local durante algum tempo antes da construção. Uma recomendação particularmente boa para o local é se, durante sua permanência no local, as vacas e touros ficarem "amorosos."


De extrema importância é a orientação da estrutura em relação aos pontos cardeais da bússola. Segundo a ciência Vastu, o globo terrestre é coberto por uma rede de linhas de energia: um malha de energia. Essas linhas são semelhantes ao que conhecemos como linhas de longitude e de latitude. As linhas são "conduítes pelos quais a energia concentrada no centro da Terra vital sai fluindo e se distribui sobre a Terra. São também linhas de absorção de energias solares, lunares e estelares."

CONTINUAÇÃO DO TEXTO

Parte 2

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FONTE DO TEXTO

(http://www.amaluz.com.br). Publicado originariamente na revista Amaluz, que não mais tem sido editada, embora fosse uma ótima publicação. Fazemos votos de que possa renascer, com a mesma qualidade de antes.




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