O Cérebro - 6






Uma Máquina Pensante




Capítulo 6

O HOMEM QUE PERDEU O CARÁTER

Na história da neurologia, nenhum outro personagem merece tantos estudos e citações quanto o trabalhador braçal Phineas Gage. Em 1848, Gage atuava como contramestre de um grupo de operários que construía uma linha de trem no Estado norte-americano de Vermont.

O neurologista inglês Olivers Sacks, de 64 anos, é hoje um dos mais respeitados exploradores dos segredos do cérebro. Para quem tem boa memória, Sacks é o médico vivido pelo ator Robin Williams no filme Tempo de Despertar (1990), em que contracena com Robert DeNiro, um paciente que acorda depois de anos de sono profundo.

Em seu último best-seller, Um Antropólogo em Marte, Sacks narra sete impressionantes histórias de casos clínicos em que predominam deficiências e distúrbios neurológicos. Em todos os episódios, é surpreendente a excentricidade dos processos de adaptação do indivíduo aos novos conceitos de realidade. Há um pintor que passa a ver o mundo em preto e branco aos 65 anos de idade. Há o caso de um jovem que perde a visão e a capacidade de armazenar dados além de poucos minutos. Nessa dramática história, cujo título é O Último Hippie, Sacks trata de Greg F., um rapaz vítima de um tumor sofre sérias lesões no cérebro. A glândula pituitária e a região do quiasma óptico adjacente são destruídas, em um processo de devastação que atinge ambos os lados do lobo frontal, os lobos posteriores e temporais, além do diencéfalo e o prosencéfalo. Greg perde a noção do que significa "ver" e não admite estar cego. Ao mesmo tempo, perde a capacidade de estocar novas memórias. Intactas permanecem as lembranças do período anterior à doença, especialmente os anos 60, em que o jovem se deliciou com o rock de protesto e seguiu a doutrina de vida do hippies.

Greg tem uma memória que parece funcionar com pilhas cuja energia se esgota rapidamente. Ele se emociona ao receber a notícia da morte do pai. Minutos depois, no entanto, se esquece por completo da informação. Não se trata, evidentemente de um benefício da memória. A cada vez que é confrontado com a perda tudo se repete como se fosse a primeira vez: o choque da notícia, a tristeza aguda e a prostração. Apesar de todas as lesões irreversíveis, Greg parece muitas vezes viver feliz. Faz piadas, canta e brinca com os colegas. Preso em seu mundo de curtas emoções e escuridão, o último hippie criou sua própria realidade, suas formas de perceber o mundo exterior e lidar com ele. O neurologista inglês Olivers Sacks, de 64 anos, é hoje um dos mais respeitados exploradores dos segredos do cérebro. Para quem tem boa memória, Sacks é o médico vivido pelo ator Robin Williams no filme Tempo de Despertar (1990), em que contracena com Robert DeNiro, um paciente que acorda depois de anos de sono profundo.

Uma explosão acidental fez com que uma barra de ferro acabasse trespassando sua cabeça, caindo a trinta metros de distância, envolta em sangue e pedaços de carne. Para espanto de todos, não morreu. Levantou-se atordoado e foi procurar um médico. Gage teve um abscesso no lobo frontal e reclamou de um certo mal-estar nas semanas seguintes. Mesmo assim, o processo de recuperação pareceu milagroso. Em poucos meses, foi dado como curado. A princípio, os resultados do tratamento reforçaram a crença de que largas porções do cérebro não tinham função alguma. Entretanto, com o passar do tempo, os amigos passaram a notar uma mudança radical no comportamento de Gage. Tornou-se inquieto, irreverente, dado a brincadeiras grosseiras. Antes do acidente, era tido como um trabalhador atento e diligente, um homem de negócios sério e competente. Essas características se perderam. Passou a se dedicar a inúmeros projetos que eram logo abandonados em favor de outros. A lesão do lobo frontal parecia ter criado um outro homem, infantil, inconseqüente, escravo de seus instintos animais. Mudara em Gage não as habilidades, a destreza em lidar com as ferramentas de trabalho, mas o espírito. Os colegas logo perceberam a transfiguração e admitiram estar diante de outra pessoa.

Os estudos sobre Gage, que morreu 13 anos depois do acidente, ajudaram a traçar um mapa mais aprimorado das funções cerebrais. Uma das particularidades dignas de nota do cérebro humano é justamente o desenvolvimento dos lobos frontais, muito menos evoluídos nos macacos e insignificantes em outros mamíferos. Trata-se da parte do cérebro que mais se desenvolve depois do nascimento. As partes superiores do cérebro são hoje tidas como centros reguladores das características mais elevadas do comportamento, como o senso de ética, a capacidade de antecipar o futuro e a responsabilidade.


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Fonte: http://www.estado.estadao.com.br/
edicao/especial/ciencia/cerebro




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