PARÁBOLAS BUDISTAS 42

UM BOM AMIGO

Silanisamsa Jataka


Desenho de Sandro Neto Ribeiro

O Buda contou esta história no Monastério de Jetavana, sobre um devoto seguidor.


Uma noite, este fervoroso discípulo veio para perto da beira do rio Aciravati, em seu caminho para Jetavana, para ouvir o Buda. Não havia nenhum barco no ancoradouro e o barqueiro que atravessava as pessoas, havia puxado todos os barcos para longe do ancoradouro, pois também havia saído juntamente com os outros para ouvir o Buda.


A mente deste fervoroso discípulo estava totalmente imersa pelos maravilhosos pensamentos sobre o Buda e isto fez com que ele caminhasse sobre o rio, sem que os seus pés afundassem na água. Ele caminhava pela água como se estivesse andando em terra seca, entretanto, quando ele percebeu as ondas no meio do rio, suas fortes emoções e alegrias diminuíram e seus pés começaram a afundar, mas rapidamente ele recomeçou a concentrar seus pensamentos nas qualidades do Buda. Assim, os seus pés subiram para a superfície da água e ele pode caminhar alegremente sobre a água. Quando chegou a Jetavana, ele saudou o Mestre com muito respeito e tomou um lugar para sentar.


O Buda falou: "Bom seguidor", dirigindo-se a este discípulo, "Eu espero que você não tenha tido nenhum acidente em sua vinda para cá."


O discipulo respondeu: "Venerável senhor, enquanto vinha para cá, eu estava tão absorvido nos pensamentos do Buda que quando cheguei ao rio, fui capaz de caminhar sobre ele como se este fosse sólido. O Iluminado disse: "Meu amigo, você não é o único que foi protegido neste caminho. Nos velhos tempos, fervorosos seguidores que tiveram seus barcos afundados no meio do oceano foram salvos por relembrarem das virtudes do Buda". A um pedido de um homem, o Buda contou esta história do passado.

Há muito tempo atrás, no tempo do Buda Kassapa, um discípulo dele, pegou uma passagem num barco junto com seu amigo, um rico barbeiro. A esposa do barbeiro pediu ao discípulo que cuidasse do seu marido nesta viagem. Uma semana depois que o barco deixou o porto, ele afundou no meio do oceano. Os dois amigos foram salvos ao se agarrarem num pedaço de madeira, a ultima coisa que sobrou do barco afundado e que os ajudou a chegar numa ilha deserta. Famintos, o barbeiro matou algumas aves, cozinhou e ofereceu a metade para o seguidor do Buda.


Ele respondeu ao oferecimento da comida com as seguintes palavras: "Não, muito obrigado, eu estou bem". Então ele pensou consigo mesmo. "Neste lugar tão isolado, não existe socorro para nós com exceção da Gema Tripla". Enquanto ele estava sentado meditando sobre a Gema Tripla; um rei naga, que nasceu nesta ilha, transformou-se em um lindo navio repleto com sete espécies de jóias. Os três mastros do navio eram feitos de safiras, os lados dos navio e as ancoras eram de ouro e as cordas eram de pratas.


O timoneiro, que era um espírito do mar, apareceu no navio e gritou.


"Há aqui algum passageiro para a Índia?".


"Sim", o discípulo respondeu. "Este e o lugar para o qual estávamos indo".


"Então suba a bordo", o espírito respondeu.


O seguidor subiu a bordo do lindo navio e voltou-se para chamar seu amigo barbeiro.


O espírito do mar então falou, "Você pode vir, mas ele não pode".


"Por que não"? o discípulo perguntou.


O espírito do mar respondeu, "Ele não é um seguidor de uma vida religiosa, eu trouxe esse navio para você e não para ele". O discípulo respondeu: "Neste caso, todos os dons que eu ganhei, todas as virtudes que pratiquei, todos os poderes que eu desenvolvi - eu dou tudo isto a ele".


"Obrigado mestre!", gritou o barbeiro.


"Muito bem" disse o espírito do mar, "agora eu posso levar os dois para bordo".

O navio levou os dois homens pelo mar até o Rio Ganges. Após deixá-los seguros em suas casas em Varanasi, o espírito do mar usou seu poder mágico para criar um grande tesouro para ambos. Posteriormente, ele levitou e ensinou para eles e seus amigos: "Se alie com a sabedoria e a bondade. Caso este barbeiro não estivesse na companhia desse sincero seguidor, certamente teria perecido no meio do oceano". Finalmente, o espírito do mar retornou para o seu mundo, levando o navio com ele.


Concluindo seu discurso, o Buda identificou o Nascimento e ensinou o Dharma, declarando que o seguidor entrou no segundo caminho.


Acrescentando, disse: "Naquela ocasião, o discípulo atingiu o estado de arhat (santidade), Shariputra era o rei naga e eu, o espírito do mar".

MORAL DA HISTÓRIA

Busque se associar aos sábios e bons.

A tradução deste texto é uma preciosa colaboração de Vera Vicente, com ilustração de Sandro Neto Ribeiro.


A HISTÓRIA DE SESSEN DOJI


Desenho de Sandro Neto Ribeiro

(...)Houve certa vez, uma pessoa que vivia na Montanha da Neve (Sessen), chamada Sessen Doji. Ele recolhia samambaias e nozes para o seu sustento, fazia roupas com couro de gamo para cobrir seu corpo e seguia calmamente o caminho. Observando profundamente o mundo, Sessen Doji descobriu que nada é permanente, e tudo muda, e todo ser que vem à existência está inexoravelmente destinado a morrer. A transitoriedade com que o orvalho desaparece ao sol, ou pelos relâmpagos, ou pelas chamas que sobem em fumaças , ou pelas frágeis folhas da tanchagem que se desintegram.(...)


(...)Sessen Doji estava determinado a despertar do sonho do mundo secular e buscar a realidade da iluminação. Portanto, isolado nas montanhas, ele dedicava-se à profunda meditação e à limpeza da poeira da desilusão, dentro de sua busca dedicada à Lei Budista.


Nos céus, o deus Taishaku1 observava Sessen Doji. Ele pensou: "Existem muitos peixinhos, mas poucos sobrevivem até a maturidade. São muitas as flores da mangueira, mas poucas tornam-se frutos. Semelhantemente, muitos procuram a iluminação em seus corações, mas somente uns poucos persistem na prática até chegarem ao objetivo final. A aspiração à iluminação nos mortais comuns é frequentemente perturbada pelas más influências, e facilmente abalada pelas mudanças das circunstâncias, da mesma maneira como muitos guerreiros vestem suas armaduras, sendo poucos os que vão à batalha sem temor". Taishaku, no desejo de testar a fé daquele jovem, disfarçou-se como demônio e apareceu ao lado de Sessen Doji.

O Buda não havia feito seu advento neste mundo e, embora Sessen Doji tivesse procurado com afinco os ensinos do Mahayana, não havia ainda conseguido ouvir uma só palavra do mesmo. Foi quando ouviu uma voz frágil dizendo:


"Tudo é mutável, nada é constante; assim é a lei do nascimento e da morte."


Atônito, olhou ao redor mas não pôde ver ninguém senão um demônio próximo, de pé. Com seus cabelos de fogo e dentes como facas, o demônio horrível e de aspecto feroz olhava para Sessen Doji com seus olhos brilhando. Mesmo assim, Sessen Doji não estava assustado ao mínimo. Ele estava tão contente por ouvir um ensino do Budismo, que não sentia a menor apreensão. Ele parecia mais um bezerro separado de sua mãe e atraído pela sua voz suave. "Quem recitou o verso? Deve haver mais uma outra parte", pensou Sessen Doji, e novamente olhou ao redor, mas não havia ninguém àu: "Não me perturbe. Não me alimento há dias. Estou quase morto de fome, cansado e quase fora de mim. Devo ter pronunciado alguma asneira, mas, com a minha mente entorpecida, não sei do que se tratava".


Sessen Doji disse: "Para mim, ouvir somente a primeira metade daquele verso é como ver apenas a metade da lua ou obter somente a metade de uma jóia. Aquelas devem ter sido suas palavras; então, peço-lhe que me ensine a metade restante". O demônio respondeu: "Você está quase iluminado, e não terá ressentimento mesmo não ouvindo o resto do verso. Estou morrendo de fome. Não tenho mais forças para falar, portanto, não diga mais nada".


"Poderia ensinar-me se lhe der algo para comer?" Sessen Doji implorou. "Se tiver algo para comer, sim", respondeu o demônio. "Então, que espécie de comida você quer?" Perguntou Sessen Doji, cheio de alegria. Mas o demônio respondeu: "Chega de perguntas. É claro que você ficará horrorizado quando disser o que eu como. Além disso, jamais poderá conseguí-lo".

Mas Sessen Doji insistia: "Basta dizer-me o que deseja, e procurarei encontrá-lo". O demônio respondeu: "Como somente carne fresca de seres humanos e bebo seu sangue quente. Eu vôo pelos ares para longe e em todos os lugares, mas as pessoas são protegidas pelos Budas e deuses, de modo que não consigo matá-las, mesmo que o queira. Só posso matar e alimentar-me daquelas a que os Budas e deuses abandoraram". Ouvindo isso, Sessen Doji resolveu sacrificar seu próprio corpo pela lei, a fim de ouvir o verso inteiro. Ele disse: "Seu alimento está aqui. Não precisa procurar mais. Estou vivo, portanto minha carne está fresca e como meu corpo esta quente, assim está o meu sangue. Portanto, peço que me ensine o resto do verso e eu, em troca, oferecerei meu corpo". O demônio enfureceu-se imediatamente e disse: "Quem pode acreditar em suas palavras? Após ensinar o resto do verso, a quem eu poderia recorrer para que você cumpra sua promessa?"


Sessen Doji respondeu: "Este meu corpo é imortal. Porém se eu, em devoção à Lei, deixar este corpo vil, que iria de outra forma morrer em vão, certamente poderei atingir a iluminação na próxima existência e tornar-me um Buda. Minha vida será imaculada. Será como abandonar potes de cerâmica e receber um vaso feito de predas preciosas. Apelo a Bonten e Taishaku2 aos Quatro Reis Celestes3, assim como a todos os Budas e bodhisattvas das dez direções4 para testemunho. Eu não posso enganá-lo diante deles".


Um pouco mais calmo, o demônio disse: "Se o que afirma é verdade, eu lhe ensinarei o restante". Eufórico, Sessen Doji tirou seu manto de pele e estendeu-o para que o demônio sentasse sobre ele enquanto ensinava. E então Sessen Doji ajoelhou-se, baixou sua cabeça ao solo e juntou as mãos em oração "Tudo que lhe peço é que me ensine o resto do verso". Ele ofereceu seu respeito cordial ao demônio que, sentado sobre a pele, revelou:


"Extinguindo os sofrimentos do nascimento e da morte, a pessoa entra no Nirvana. Essa é a verdadeira felicidade".


Tendo ouvido isso, Sessen Doji estava exultante. Seu louvor ao verso era infinito e sem limites. Decidido a lembrar-se dele mesmo na existência seguinte, repetiu-o muitas e muitas vezes, e gravou-o no fundo do coração.


Pensou profundamente: "Alegro-me com o fato deste verso (embora proveniente de um demônio) não ser diferente do ensino do Buda. Porém, lamento ter ouvido sozinho e não poder transmitir aos outros". Ele inscreveu a estrofe em pedras, nas faces dos rochedos e em todas as árvores da estrada, e orou para que todos os que passassem mais tarde o vissem, compreendessem o seu significado e entrassem finalmente no verdadeiro caminho. E então, subiu numa árvore alta e atirou-se ao demônio. Porém antes de chegar ao chão, o demônio voltou à forma de Taishaku, segurou Sessen Doji e colocou-o devagar no chão. Adorando-o respeitosamente, Taishaku disse: "Para prová-lo, ocultei por instantes o sagrado ensino do Buda, provocando angustia no coração de um bodhisattva. Oro para que me perdoe deste pecado e salve-me sem falha na próxima existência".


E então, todos os deuses celestes apareceram para elogiar Sessen Doji, dizendo: "Quão maravilhoso! Ele é um verdadeiro bodhisattva". Assim oferecendo sua vida para ouvir a metade de um verso, Sessen Doji prosseguiu transcendendo os sofrimentos do nascimento e da morte durante doze "aeons". Esta história aparece no Sutra do Nirvana.

1 - Taishaku: Um dos deuses que protegem o Budismo. Quando o Buda Sakyamuni escontrava-se ainda nos exercícios da prática para a iluminação, este deus apareceu transformado em diversos aspectos para provar o seu espírito de procura. Após a iluminação de Sakyamuni entretanto, jurou proteger o Budismo.


2 - Bonten e Taishaku: Afirma-se que Bonten, um dos principais deuses budistas, vive no mundo da matéria, sobre o monte Sumeru, e governa o mundo "saha". Taishaku é também um dos principais deuses protetores do Budismo. Originalmente era o deus do trovão da mitologia indiana primitiva, e foi adotado como divindade protetora do Budismo. Com o apoio dos Quatro Reis Celestes, ele comanda os trinte e três deuses que residem no alto do monte Sumeru (É diferente do deus Taishaku do item 1)


3 - Quatro Reis Celestes: Jikokuten; Komokuten, Bishamonten e Zotyoten, lordes dos quatro céus que rodeiam o monte Sumeru, o suposto centro do mundo na antiga Índia. Afirma-se que esses quatro deuses viviam no meio das quatro encostas da montanha. Suas funções respectivas são: proteger o mundo, ver através do mal e punir os que o cometem, ouvir os sutras e proteger o lugar onde é praticado, e aliviar as pessoas dos seus sofrimentos. No 26º capítulo (Darani) do Sutra de Lótus, eles juraram proteger os que abraçam o sutra.

A história de Sessen Doji é citada muitas vezes por Nitiren Daishonin em suas escrituras, o texto acima foi extraído da Escritura Resposta ao Lorde Matsuno, pág. 378 do livro "As Escrituras de Nitiren Daishonin" - Volume 1 -Editora Brasil Seikyo.

Pesquisa, digitação e ilustração de Sandro Neto Ribeiro.

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FONTE DOS TEXTOS

As Mais Belas Histórias Budistas, página criada por Sandro Neto Ribeiro.


http://www.vertex.com.br/users/san



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