PARÁBOLAS BUDISTAS 44

QUATRO EM UM GALHO

Certa vez, o Rei de Benares, Brahmadatta, teve um filho. Ele cresceu para ser malvado e cruel, o tipo que esta sempre tentando provar que é mais forte que os outros. Ele era irado, e constantemente provocava as pessoas e puxava brigas. Sempre que falava com os outros era como uma corrente de obscenidades vindas direto da sarjeta. Ele sempre se enfezava com rapidez – era como uma cobra, sempre pronta para dar o bote ao ser pisada.


As pessoas de dentro e fora do palácio corriam dele como a um demoníaco canibal faminto. Eles o evitavam como a um cisco no olho. Pelas costas, todos o chamavam de Príncipe Malvado – resumindo – ele não era um homem bom!


Um dia, o príncipe decidiu ir nadar. Então, ele desceu até o rio com seus ajudantes e servos. De repente, o tempo fechou e o dia ficou escuro como a noite. Começou uma enorme tempestade. Sendo ele muito áspero e resistente, o príncipe estava sempre querendo mostrar que não tinha medo de nada. Assim, ele gritou a seus servos: “Me levem até o meio do rio e me banhem. Aí me levem de volta até a margem.”


Seguindo suas ordens, eles o levaram até a correnteza do rio. Então disseram: “Agora é a nossa chance! Qualquer coisa que fizermos aqui, o Rei nunca saberá. Então vamos matar este Príncipe Malvado. Você vai com a inundação: Seu "Bom-para-Nada!" Com isto, eles o atiraram dentro do tempestuoso rio.


Desenho de Sandro Neto Ribeiro

Quando voltaram às margens do rio, os demais perguntaram onde estaria o príncipe. Eles responderam: “Nós não sabemos, quando a chuva começou, ele deve ter nadado mais rápido que nós e ido de volta a Benares.”


Quando chegaram ao palácio, o Rei perguntou: “Onde está meu filho?”. Eles responderam: “Nós não sabemos, Sua Majestade. Quando a tempestade começou, nós pensamos que ele tivesse voltado na nossa frente. O Rei Brahmadatta selecionou um grupo de busca e eles começaram a procurar pelo príncipe. Eles procuraram cuidadosamente, por todo o caminho até o rio, mas não o encontraram.


O que aconteceu foi o seguinte. Na escuridão, ventania e chuva, o príncipe foi puxado rio abaixo. Por sorte, ele encontrou um galho descendo a correnteza e se agarrou a ele freneticamente para salvar sua doce vida. A medida que ele descia o rio, o todo-poderoso príncipe tinha tanto medo de se afogar que começou a chorar como um bebê aterrorizado.


Mas aconteceu que não muito antes, um homem muito rico havia morrido em Benares. Ele tinha enterrado nas margens do rio um grande tesouro. Sua fortuna era de 40 milhões de moedas de ouro. Por ele ter sido um homem ávido por riquezas, ele havia renascido como uma cobra, deslizando sua barriga enquanto guardava seu tesouro.

Num outro local próximo dali, também às margens do rio, outro miserável rico havia enterrado um tesouro de 30 milhões de moedas de ouro. Do mesmo modo que o primeiro, por sua busca incessante de riquezas durante sua vida, ele havia renascido como um rato d’água. Ele também continuava ali a guardar seu tesouro.


Foi então, que durante a tempestade, a cobra e o rato foram tragados pela inundação para fora de seus buracos e levados pelo rio tempestuoso. Com medo de se afogarem, os dois por acaso agarraram-se ao mesmo pedaço de galho seco onde estava também o príncipe lamuriante que fora castigado. A cobra se agarrou numa ponta do galho e o rato d’água na outra.


Existia também uma grande árvore de algodão crescendo nas redondezas. Lá estava um jovem papagaio pigarreando em cima dela. Quando o tempestuoso rio começou a subir com a enchente, as raízes da árvore foram lavadas e ela se desprendeu da terra caindo na água. Quando o papagaio tentou voar, o vento e a chuva empurraram ele para o mesmo galho morto onde se encontravam a cobra, o rato d’água e o Príncipe Malvado.


Agora havia quatro no galho, flutuando em direção a curva do rio. Um pouco adiante, havia um homem iluminado vivendo humildemente numa pequena cabana. Acontece que ele era o bodhisattva – o Ser Iluminado. Ele tinha nascido numa família rica de classe alta em Kasi. Quando ele cresceu, ele abriu mão de toda sua fortuna e poder para morar sozinho perto do rio.

Estava no meio da noite quando o homem iluminado ouviu a voz de pânico vinda do Príncipe Malvado. Ele pensou, isto parece com o som de um ser humano bastante amedrontado. Minha natureza amável não vai deixar eu ignorar este chamado. Eu preciso salvá-lo.


Ele correu até a margem do rio e gritou: “Não tenha medo! Eu vou salvar você!” Então ele pulou na forte correnteza, agarrou o galho e usou toda sua força para puxá-lo até a margem do rio.


Ele ajudou o príncipe a chegar seguro até a margem do rio. Tendo reparado na cobra, no rato d’água e no papagaio, ele os pegou e levou-os até o sua pequena e aconchegante cabana. Ele começou a colocar lenha no seu fogão.


Imaginando a fraqueza dos animais, ele gentilmente os aconchegou próximo ao fogo para aquecê-los. Apenas depois deles estarem quentes e secos, ele os colocou de lado. Só então ele deixou o príncipe se aquecer. O homem iluminado trouxe frutas e nozes. De novo ele alimentou os animais mais frágeis primeiro, seguido do príncipe que aguardava.


Como era de se esperar, isto fez o Príncipe Malvado ficar furioso! Ele pensou “Este estúpido homem iluminado não se importa comigo, o grande príncipe real. No entanto ele da destaque a estes três animais idiotas!” Pensando assim, ele armou uma vingança terrível contra este gentil bodhisattva.

No dia seguinte, o homem iluminado pegou aquele galho seco e o colocou no sol para secar. Ele então o cortou e colocou no fogão para cozinhar a comida e os manterem aquecidos. Em poucos dias, os quatro que haviam sido salvos por aquele galho estavam fortes e saudáveis.


A cobra veio até o homem iluminado para dizer adeus. Ela levantou seu corpo do chão, e fez uma reverência arqueando o dorso e abaixando a cabeça respeitosamente. Ela disse: “Venerável ser, você fez algo maravilhoso por mim! Eu estou muito agradecido a você e eu não sou uma pobre cobra. Em um local, eu tenho enterrado um tesouro de 40 milhões de moedas de ouro. Eu terei prazer em dá-las a você – pois, a vida não tem preço. Sempre que você estiver precisando de dinheiro, basta vir até a margem do rio e chamar por mim: cobra, cobra!”.


Também o rato d’água veio dizer adeus ao homem iluminado. Ele se levantou nas suas duas patas e abaixou sua cabeça respeitosamente. Ele disse: “Venerável ser, você fez algo maravilhoso por mim! Eu estou muito agradecido a você, e eu não sou um pobre rato d’água. Em um certo local eu tenho enterrado 30 milhões de moedas de ouro. E eu terei prazer em dá-las a você – pois a vida não tem preço. Sempre que você necessitar de dinheiro, basta ir até a margem do rio e chamar: rato, rato!"


Quanta generosidade da cobra e do rato d’água! Uma grande diferença em relação às suas vidas humanas passadas na sovinice.

Chegou a vez do papagaio dizer adeus ao homem iluminado. Ele arqueou sua cabeça respeitosamente e disse, “Venerável ser, você fez algo maravilhoso por mim! Eu sou muito agradecido a você, mas eu não possuo nenhum ouro ou prata, no entanto, eu não sou um pobre papagaio. Portanto, se você estiver precisando do mais fino arroz, basta vir até a margem do rio e me chamar: Papagaio! Papagaio!. Então eu irei reunir todos os meus parentes de todas as florestas do Himalaia e vamos trazer-lhe muita quantidade do mais perfumado e precioso arroz vermelho. Pois a vida não tem preço!”


Finalmente chegou a vez do Príncipe Malvado vir até o homem iluminado. Como sua mente estava cheia com o veneno da vingança, ele pensava apenas em matá-lo se o visse de novo. No entanto, o que ele disse foi o seguinte: “Venerável ser, quando eu for rei, por favor venha até mim e eu o providenciarei as Quatro Necessidades.” Ele retornou a Benares e logo se tornou rei.


O tempo se passou e o homem iluminado decidiu ver se a gratidão destes quatro era real. Primeiro ele foi até as margens do rio e chamou: Cobra! Cobra! Ao som da primeira palavra, a cobra saiu de seu buraco sob o solo. Fez uma reverência respeitosa e disse: “Ser iluminado, aqui mesmo tenho enterrado as 40 milhões de moedas de ouro. Desenterre-as e as leve com você!” “Muito bem.” disse o homem iluminado, “quando eu precisar eu virei novamente”.


Deixando a cobra, ele continuou caminhando as margens do rio e chamou: “Rato! Rato!” O rato logo apareceu e tudo aconteceu como tinha sido com a cobra.


A seguir, foi a vez do papagaio, “Papagaio! Papagaio!” O papagaio desceu voando do alto da árvore, fez uma reverência e disse: “Ser iluminado, você quer o arroz vermelho? Eu vou reunir meus parentes e iremos trazer o melhor arroz dos Himalaias. “O homem iluminado respondeu, “muito bem, quando eu precisar, volto para buscar”.

Finalmente chegou a vez de ir ver o rei. Ele caminhou até os agradáveis jardins reais e resolveu passar a noite ali. Quando amanheceu, de maneira muito humilde e digna, ele foi coletar doações de alimentos na cidade de Benares.


Na mesma manhã, o rei mal agradecido, sentado no seu elefante magnificamente adornado, estava liderando uma procissão ao redor da cidade. Quando ele avistou o Ser Iluminado vindo em sua direção ele pensou: “Aha! Aquele preguiçoso, mendigo, sem teto, está vindo para me sugar. Antes que ele venha me cobrar o que fez por mim, eu o mandarei decapitar.


Então ele disse aos seus servos, “Este pedinte inútil deve estar vindo me pedir alguma coisa. Não deixem este "Bom-para-nada" chegar perto de mim. Prendam-no imediatamente, amarrem suas mãos atrás das costas e chicoteiem-no em todo cruzamento de ruas. Levem-no para fora da cidade, até o bloco de execução e cortem-lhe a cabeça. Coloquem seu corpo numa estaca afiada e deixem lá para que todos vejam. Basta de pedintes preguiçosos!”.


Os homens do rei seguiram suas cruéis ordens. Eles amarraram o inocente Grande Ser como a um criminoso comum. Eles o chicotearam sem misericórdia a cada esquina até o bloco de execução. Mas não importando a força com que eles batiam nele, que cortava sua carne, ele continuou digno. Depois de cada chicotada ele simplesmente anunciava para que todos ouvissem: “Isto prova que o velho ditado continua verdadeiro - É mais gratificante tirar um galho seco do rio do que um homem mal agradecido!”.

Alguns dos espectadores começaram a se perguntar porque ele dizia apenas isto a cada esquina. Eles disseram um para os outros: “A dor deste pobre homem deve ter sido causada por um homem mal agradecido”. Então eles o perguntaram: “Oh santo homem, você fez algum serviço para algum mal agradecido?”.


Ele então contou toda a história. E concluindo disse: “Eu salvei este rei de uma terrível enchente, e fazendo isto eu trouxe esta dor a mim mesmo. Eu não segui o velho ditado, foi por isto que eu estava dizendo aquilo.


Ouvindo esta história, a população de Benares se enfureceu, e disseram: “Este bom homem salvou a vida do rei. Mas ele é tão cruel que não tem nenhuma gratidão. Como um rei destes pode nos beneficiar em alguma coisa? Ele só poderá ser perigoso a nós. Vamos pegá-lo!”.


A raiva tornou os cidadãos de Benares numa multidão furiosa. Eles apedrejaram o rei com flechas, facas, pedras e paus. Ele morreu ainda em cima de seu elefante real. Eles então jogaram o corpo morto do assim conhecido como Príncipe do Mal numa vala na beira da estrada.

Logo em seguida, eles fizeram do homem iluminado o seu novo rei. Ele foi um bom governante para Benares. Então um dia ele decidiu ir visitar os seus velhos amigos. Então ele formou uma grande procissão e foi a caminho das margens do rio.


Ele chamou, “Cobra! Cobra!”. A cobra apareceu e ofereceu seu respeito a ele e disse: “Meu lorde, se assim o desejar, será bem vindo ao meu tesouro.” O rei ordem aos seus servos que desenterrassem os 40 milhões de moedas de ouro.


Ele foi ate a casa do rato d’água e chamou, “Rato! Rato! “. Ele também apareceu, ofereceu seu respeito e disse, “Meu lorde, se assim desejar, será bem vindo ao meu tesouro.” Desta vez os servos desenterraram 30 milhões de moedas de ouro.


Então o rei chamou “Papagaio! Papagaio! “ O papagaio voou até o rei, fez uma reverência e disse: “Se assim desejar, meu lorde, eu vou coletar o mais excelente arroz vermelho para você. “ Mas o homem iluminado, agora rei, disse “Agora não meu amigo. Quando eu precisar de arroz, eu irei pedi-lo a você. Agora deixe-nos regressar a cidade.”

Quando eles chegaram ao palácio real de Benares, o rei pediu para guardarem as 70 milhões de moedas de ouro em um local seguro. Ele mandou então fazer uma bacia de ouro para ser o novo lar da cobra. Mandou fazer uma toca do mais fino cristal para o generoso rato vir morar. E o papagaio do rei mudou-se para uma gaiola de ouro, com uma portinhola que ele pudesse abrir e fechar por dentro.


Todos os dias o rei alimentava em pratos de ouro a cobra e o papagaio com o mais fino bolinho de arroz e o mais doce mel de abelhas. E em outro prato igualmente dourado ele dava o mais aromático arroz para o rato d’água.


O rei se tornou famoso por sua generosidade com os mais necessitados. Ele e seus três amigos animais viveram juntos em perfeita harmonia por muitos anos. Quando eles morreram, todos renasceram como mereciam.

MORAL DA HISTÓRIA

Gratidão é uma recompensa, que é recompensada por si só.

A tradução deste texto é uma preciosa colaboração de Izabella Salomão, com ilustração de Sandro Neto Ribeiro.

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FONTE DOS TEXTOS

As Mais Belas Histórias Budistas, página criada por Sandro Neto Ribeiro.


http://www.vertex.com.br/users/san



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