PARÁBOLAS BUDISTAS 45

PORISADA, O REI DE BENARES

Muito tempo atrás, mesmo até antes disso, viveu um rei na Índia que reinava da cidade de Benares, situada às margens do rio Ganges, no coração da Índia. O rei gostava muito de comer carne, e nunca passava uma refeição sem ela. Seu cozinheiro-chefe tornou-se muito habilidoso no preparo de carnes condimentadas e sempre se assegurava de que ao rei fosse servido pelo menos dois ou três diferentes pratos de carne.


Na Índia daqueles tempos, as pessoas estavam acostumadas a respeitar o Uposatha nos dias santificados, ou seja, observavam cuidadosamente os cinco preceitos.


Algumas delas iam para o monastério e observavam oito preceitos. Isto significava que especialmente naqueles dias elas eram totalmente proibidas de matar qualquer animal e, então, usualmente comiam apenas comida vegetariana.


Desenho de Sandro Neto Ribeiro

Num desses tais dias de Uposatha, o cozinheiro-chefe do rei estava em verdadeiro pânico. Não havia sido capaz de encontrar qualquer carne em lugar algum em toda a grande cidade de Benares e a hora da refeição do rei estava quase se aproximando. Não havia qualquer carne deixada do dia anterior e ele sabia como furioso o rei ficaria se não houvesse carne na mesa de jantar. Provavelmente o rei mandaria executá-lo, ou, no mínimo, poderia bani-lo da cidade. Ele seria muito sortudo se escapasse dessa com vida.


Por fim, o cozinheiro pensou numa solução. Havia um lugar onde ele poderia encontrar alguma carne - no cemitério da cidade! Ugh! Bem, naqueles dias na Índia, quando as pessoas morriam, seus corpos não eram cremados justamente porque havia muita gente em Benares e não tinha lenha bastante para cremar todos os corpos. De modo que eles envolviam os corpos em tecidos brancos e os deixavam no cemitério à beira do matagal. Animais selvagens viriam à noite e comeriam os restos.


O cozinheiro foi imediatamente para aquele lugar e, encontrando alguns corpos, fresquinhos, ele cortou uma perna. Escondendo-a cuidadosamente, ele retornou às cozinhas do palácio. Ele era tão habilidoso na sua arte de cozinhar que pensou, "O rei jamais saberá. Darei a isto o sabor igual ao de cervo assado." O cozinheiro preparou a carne, cuidadosamente dissimulando sua aparência e temperando-a com os mais fortes temperos.

Afortunadamente, naquele dia o rei estava fora passeando a cavalo e voltou bem tarde, dando ao cozinheiro mais tempo para trabalhar. Quando chegou, o rei estava faminto e ordenou de imediato que sua refeição fosse servida. A comida estava pronta fumegando de quente, com molhos e tudo o mais, esperando para ser servida.


O cozinheiro serviu a refeição de uma vez e ficou espreitando o rei com muito cuidado, certificando-se de que ele estava sendo servido plenamente de carne e molho - como ele sabia que o rei gostava. Não estava de todo certo se o rei poderia notar algo errado, e ficou aterrorizado só em pensar na reação que o rei poderia ter se soubesse o que estava comendo.


Finalmente a refeição terminou, e o guloso rei expressou sua satisfação com um arroto real."Que excelente comida você preparou, mestre, esta foi a melhor refeição que eu já tive. Que tipo de carne você usou? Deveremos ter o mesmo prato amanhã."


Bem, é claro que o cozinheiro não se atreveu a responder à pergunta do rei e arranjando alguma desculpa disse, "É tão trabalhoso encontrar os ingredientes que devo começar logo!" Assim dizendo, estalou os dedos para que os serventes se apressassem e limpassem a mesa pois ele tinha muitas coisas a preparar para a refeição de amanhã.


No dia seguinte, o cozinheiro foi novamente ao cemitério e desta vez trouxe o bastante para dois dias, e preparou a comida da mesma forma como no dia anterior. O rei mais uma vez ficou encantado com a comida, mas fortunadamente estava muito ocupado para perguntas ao cozinheiro e este, por sua vez não estava ficando ao redor para ser questionado. Reis estão sempre ocupados. Eles têm tantas coisas a fazer dirigindo o exército e o palácio que mal têm tempo para comer ou relaxar como as pessoas comuns.

De modo que a vida no palácio ia indo como de costume, exceto que o cozinheiro tinha de ir todos os dias ao cemitério em segredo para encontrar um cadáver para a refeição do rei. Um dia, entretanto, desafortunadamente para o cozinheiro, não havia mais cadáveres, de maneira que ele teve de usar carne comum.


Você pode imaginar a raiva do rei. Ele intimou e exigiu saber do cozinheiro por que faltava seu prato favorito. O cozinheiro foi forçado a admitir ao rei qual o tipo de carne que ele usava. Porém, para alívio do cozinheiro mais que tudo, o rei não ficou zangado e apenas disse, "Bem, isto não é problema, há bastante prisioneiros condenados na cadeia, você pode usá-los para carne.


Tudo estava indo bem novamente, por enquanto, mas por fim não havia mais prisioneiros na cadeia, de modo que o cozinheiro tinha sua vida novamente em perigo. Contudo, o rei disse, "Não se preocupe, existem montes de bêbados e ladrões nas ruas de Benares à noite; simplesmente mate um deles toda noite para minha refeição do dia seguinte. Até porque a cidade ficará melhor sem eles."


Então, o cozinheiro fez como o rei disse. Todas as noites ele colocava-se à espera em algum canto isolado, aguardando por algum sujeito embriagado vagueando por lá. Grande quantidade de beberrões ou criminosos estava sempre nas ruas nas madrugadas, de maneira que não havia mais escassez de carne para a mesa do rei.

A medida em que os meses passavam, mais mulheres reclamavam aos homens do rei. Algumas diziam, "Meu marido saiu ontem à noite e hoje ainda não voltou, e ele sempre volta para o seu café da manhã." Outras reclamavam que seus filhos ou pais se foram há semanas e desde então ninguém mais os viram.


O general do rei suspeitou de que um bando de ladrões estava à solta, e falou para seu homens patrulharem as ruas à noite para apanhá-los. Após algum tempo, como quase sempre acontece quando pessoas cometem crimes, os homens do general pegaram o cozinheiro em flagrante matando um transeunte e o trouxeram perante o rei para ser sentenciado por assassinato. Porém, o rei disse, : Deixem-no ir, ele estava obedecendo as minhas ordens."


O general era um homem muito inteligente e sabia que se fosse permitido um rei tão mal como aquele permanecer no poder, o país poderia muito breve tornar-se repleto de assassinos e outros malfeitores. Então ele decidiu que o rei deveria parar com aquilo. Porém, o rei não conseguia abandonar seu mau hábito de comer carne humana, de maneira que o general o baniu do reino, mandando-o embora para a mais distante selva, tendo justamente seu cozinheiro como companheiro.

PORISADA, O ANTROPÓFAGO

É mesmo até espantoso que o rei estivesse tão viciado em comer carne humana que relutou em desistir de seu mau hábito, embora isso lhe custasse perder o conforto e a luxúria da vida que tinha no seu próprio palácio. E embora seja assim quando as pessoas se tornam realmente viciadas em qualquer coisa - não importa o quanto você racionalmente tente convencê-las, irão fazer qualquer coisa para satisfazer seus vícios.


Foi assim então com o rei, que estava agora em exílio. Ele vivia numa distante selva, tendo apenas o cozinheiro como companhia e esperava na margem da estrada por qualquer desafortunado mercador ou viajante que acontecesse passar por ali.


Após algum tempo as pessoas da cidade começaram a ouvir falar de um estranho homem que comia pessoas, embora alguns não acreditassem nas histórias. Portanto, o antigo rei de Benares tornou-se conhecido como Porisada - o comedor de homem. Bem, ele não dava a mínima para isto, na verdade, pois ficaria igualmente feliz comendo mulheres e crianças!

Com o tempo, Porisada tornou-se tão famoso que poucas pessoas iam a qualquer lugar próximo a onde ele vivia. Exceto e tão somente estranhos descuidados. Portanto estava muito difícil para Porisada e seu cozinheiro caçar e encontrarem alguém.


Um dia eles retornaram de mãos vazias, mas Porisada disse, "Não se preocupe, prepare os molhos e acenda o fogo como de costume pois eu irei conseguir alguma carne hoje de qualquer forma."


A essa altura o cozinheiro estava deveras alarmado pela sua própria segurança, porém teve de fazer como Porisada disse, uma vez que Porisada era um tremendo atleta, e vivendo na selva ficou ainda mais forte e em forma. Não havia jeito de que o cozinheiro pudesse escapar. Pode-se imaginar exatamente o que aconteceu. Porisada agora estava sozinho e tinha de caçar longe e extensamente para encontrar suas infelizes vítimas.

CONTINUAÇÃO

A tradução deste texto é uma preciosa colaboração de Teresinha Medeiros dos Santos, com ilustração de Sandro Neto Ribeiro.

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FONTE DOS TEXTOS

As Mais Belas Histórias Budistas, página criada por Sandro Neto Ribeiro.


http://www.vertex.com.br/users/san



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