PARÁBOLAS BUDISTAS 46

PORISADA ENCONTRA UMA DIVINDADE: UMA ÁRVORE

Um dia Porisada se deparou com um mercador com apenas poucos homens para proteção. O feroz Porisada não tinha medo de ninguém - nem mesmo de cem homens, quanto mais de meia dúzia - e, além disso estava muito faminto, como de costume.


Ele deve ter sido uma figura terrível ao pular do matagal, vestido agora apenas com peles de animais. Os homens dispersaram em pânico e então Porisada agarrou o gordo mercador e carregou-o sobre seus ombros, desaparecendo rapidamente na selva. Os homens reuniram-se entre si dizendo, "Convenhamos, este mercador nos paga bem, mostremos que somos homens de verdade."


Então eles perseguiram Porisada dentro da selva, e um dos companheiros, meio forte, quase conseguiu pegar Porisada, que embora tendo nas costas o gordo mercador, ainda assim pôde correr feito um leão. Pulando sobre um pequeno penhasco para escapar de seu perseguidor, Porisada feriu severamente seu pé numa rocha afiada, mas conseguiu esconder-se e evadir-se de ser capturado.


Cansados e agora temerosos porque a noite estava chegando, os homens desistiram de sua busca e retornaram à estrada para encontrar o caminho de saída da selva.

Porisada estava gravemente ferido e não poderia mais caçar. Tendo comido o mercador, ele pôde apenas descansar sob uma árvore e rezar para sarar suas feridas. Deitado ali na selva por muitos dias ele começou a temer pela sua vida e rezava e rezava por alguma ajuda. Felizmente, para ele, aquela árvore era habitada por uma divindade que teve pena dele. A divindade árvore manifestou-se ante Porisada e prometeu curar suas feridas em troca de um grande sacrifício.


Naquele tempo era costume fazer-se oferecimentos às divindades árvores quando alguém desejava alguma coisa. Você deve saber da história de Sujata que ofereceu arroz com leite ao Bodisattva antes dele tornar-se o Buda. Ela havia rezado por um filho após fazer oferecimentos a uma determinada árvore. Vendo o Bodisattva sentado ali em serena meditação ela pensou, "Este deve ser a divindade árvore, um ser humano não seria tão parecido com um deus."

Bem, Porisada também acreditava que tais divindades árvores poderiam realizar seus desejos e, vendo aquela alí bem em frente de seus olhos, ele estava pronto para fazer qualquer coisa que a divindade pedisse. "O que eu quero? Cure minhas feridas, e eu farei qualquer coisa que pedir."


A divindade árvore respondeu, "Você deve trazer-me cento e um reis como sacrifício. Se você prometer fazer isto, eu curarei suas feridas."


Talvez devido ao fato de estar vivendo sem carne por um certo tempo, e com a miraculosa ajuda da divindade árvore, as feridas sararam perfeitamente. Em pouquíssimo tempo Porisada havia recuperado seu antigo vigor e podia correr novamente como um leão, exatamente como antes.


Para cumprir sua promessa, coisa que todos bons reis são ensinados a fazer, Porisada capturava os reis e os trazia para a árvore, amarrando-os fortemente para que não pudessem escapar de forma alguma, enquanto corria novamente para buscar mais. Finalmente, ele havia capturado cem reis. Como estava muito cansado, decidiu esperar até o dia seguinte antes de capturar o último rei. Aquela noite, a divindade árvore apareceu ante ele mais uma vez e lhe disse, "Você tem feito um bom trabalho, mas o último rei deve ser o Rei Sutasoma, que é muito virtuoso e famoso."

Porisada descansou bem aquela noite, feliz de que poderia brevemente estar apto a completar sua tarefa e cumprir sua promessa. À primeira luz da manhã do dia seguinte, ele se mandou para o palácio do Rei Sutasoma. Chegando lá cedo pela manhã, Porisada escondeu-se sob uma folha de lótus na banheira do rei e aguardou a sua chegada para o banho matinal. Era um dia de Uposatha, de maneira que o rei veio se banhar em preparação da observação dos oito preceitos e ouvir o Dharma ensinado pelo seu sábio e instruído sacerdote chefe.


Enquanto o rei se banhava, seus atendentes discretamente esperavam a alguma distância dali. Porisada saltou de seu esconderijo e agarrarou o rei, jogou-o sobre seus ombros, correndo adentro da selva mais próxima. Os homens do rei o perseguiram, mas eram por demais lentos, e Porisada já havia desaparecido dentro do intenso matagal. Eu não sei se você algum dia esteve numa selva verdadeira, mas todas elas se parecem. É muito fácil de se perder completamente, a não ser que, como Porisada, você viva sempre nela e acostume-se com os sinais pelos quais possa encontrar seu caminho.


Portanto Porisada foi hábil o bastante para cair fora, carregando o Rei Sutasoma nos seus ombros, que estava ainda molhado por causa do seu banho. Algumas gotas d'água caíram de seus cabelos nos ombros de Porisada que pensou, "Este rei deve estar chorando, pois todos homens, até mesmo os reis, sentem medo quando se deparam com a morte." Então, Porisada perguntou, "Por que está chorando. Você está com medo?"


"Não, nem estou com medo nem chorando, "Sutasoma respondeu, "porém algumas gotas d'água caíram dos meus cabelos nos seus ombros."

Porisada ficou muito surpreso com isto pois todos aqueles que ele havia capturado tinham sido muito mais medrosos, e suplicavam-lhe que poupasse suas vidas. Novamente ele perguntou, "Há algo deixado atrás que você irá sentir falta? Existe alguma coisa que você sinta saudades?"


Sutasoma respondeu, "Não há nada que sentirei falta porque eu vivo sem apegos, mas há algo que eu lamento. Esta manhã eu ia fazer uma visita de cortesia ao meu sacerdote e observar os preceitos de Uposatha. Eu havia prometido ir vê-lo hoje, mas agora não devo poder fazer isto, portanto eu lamento ter de quebrar a promessa que lhe fiz. Não poderei ouvir o Dharma de meu venerado mestre, isso é tudo. Se você for gentil o bastante para deixar que eu volte para cumprir minha promessa, após ouvir seu ensinamento, retornarei para você aqui."


Porisada ficou surpreso pela resposta do rei, porém lhe disse, "Se eu o deixar ir você jamais retornará. Ninguém iria retornar para encontrar a morte certa quando conseguira escapar dela. Se você voltar, será com um exército para prender-me."


Sutasoma respondeu, "Em qualquer caso, morte é certa. Eu juro que voltarei aqui sozinho, ou morrerei pela minha própria espada."

A esta última observação Porisada finalmente acreditou em Sutasoma. Ele era, afinal de contas, um rei desde berço e nenhum rei jamais fez um voto tão extraordinário como morrer pela sua própria espada. Também, ele conhecia Sutasoma por muitos anos, e nunca durante todo este tempo ele havia dito qualquer mentira nem quebrado qualquer promessa para ninguém.


Ele era famoso através da Índia pela sua piedade religiosa e honestidade. Então, Porisada parou e desceu o Rei Sutasoma, dizendo-lhe, "Muito bem, então, você deve ir e cumprir seu respeito para com seu mestre, porém, depois disto você deve voltar imediatamente para mim aqui, e venha sozinho."


Sutosama fez sua solene promessa, agradeceu a Porisada, e retornou feliz ao palácio, contente de que agora ele poderia cumprir sua promessa ao sacerdote.


No seu retorno, ele relatou tudo o que acontecera e, como havia planejado, foi para observar o Uposatha e ouvir o Dharma. O sacerdote recitou quatro versos, e Sutasoma ofereceu mil peças de ouro por cada verso, para mostrar sua gratidão. Sutasoma explicou a sua família e companheiros que todos seres amados podem separar-se um dia.


O momento dele havia chegado agora para deixá-los. Ele havia feito uma promessa solene e não havia outra escolha a não ser a de ir. Eles imploraram que levasse alguns soldados com ele, porém Sutasoma recusou, dizendo que ele havia prometido retornar sozinho, então sozinho ele iria. A despeito de seus apelos, ele os deixou com lágrimas em seus olhos e saiu para a selva onde Porisada estava aguardando seu retorno.

CONTINUAÇÃO

A tradução deste texto é uma preciosa colaboração de Teresinha Medeiros dos Santos.

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FONTE DOS TEXTOS

As Mais Belas Histórias Budistas, página criada por Sandro Neto Ribeiro.


http://www.vertex.com.br/users/san



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