POESIAS DE
CRUZ E SOUSA - 6


Broquéis - 2



Índice

Clamando
Braços
Regina Coeli
Sonho Branco
Canção da Formusura
Torre de Ouro
Carnal e Místico
A Dor



Clamando

Bárbaros vãos, dementes e terríveis
Bonzos tremendos de ferrenho aspeto,
Ah! deste ser todo o clarão secreto
Jamais pôde inflamar-vos, Impassíveis!


Tantas guerras bizarras e incoercíveis
No tempo e tanto, tanto imenso afeto,
São para vós menos que um verme e inseto
Na corrente vital pouco sensíveis.


No entanto nessas guerras mais bizarras
De sol, clarins e rútilas fanfarras,
Nessas radiantes e profundas guerras...


As minhas carnes se dilaceraram
E vão, das llusões que flamejaram,
Com o próprio sangue fecundando as terras...



Braços

Braços nervosos, brancas opulências,
Brumais brancuras, fulgidas brancuras,
Alvuras castas, virginais alvuras,
Lactescências das raras lactescências.


As fascinantes, mórbidas dormências
Dos teus abraços de letais flexuras,
Produzem sensações de agres torturas,
Dos desejos as mornas florescências.


Braços nervosos, tentadoras serpes
Que prendem, tetanizam como os herpes,
Dos delírios na trêmula coorte...


Pompa de carnes tépidas e flóreas,
Braços de estranhas correções marmóreas,
Abertos para o Amor e para a Morte!



Regina Coeli

Ó Virgem branca, Estrela dos altares,
Ó Rosa pulcra dos Rosais polares!


Branca, do alvor das ambulas sagradas
E das níveas camélias regeladas.


Das brancuras de seda sem desmaios
E da lua de linho em nimbo e raios.


Regina Coeli das sidéreas flores,
Hóstia da Extrema-Unção de tantas dores.


Ave de prata e azul, Ave dos astros...
Santelmo aceso, a cintilar nos mastros...


Gôndola etérea de onde o Sonho emerge...
Água Lustral que o meu Pecado asperge.


Bandolim do luar, Campo de giesta,
Igreja matinal gorjeando em festa.


Aroma, Cor e Som das Ladainhas
De Maio e Vinha verde dentre as vinhas,


Dá-me através de cânticos, de rezas,
O Bem, que almas acerbas torna ilesas.


O Vinho douro, ideal, que purifica
das seivas juvenis a força rica.


Ah! faz surgir, que brote e que floresça
A Vinha douro e o vinho resplandeça.


Pela Graça imortal dos teus Reinados
Que a Vinha os frutos desabroche iriados.


Que frutos, flores essa Vinha brote
Do céu sob o estrelado chamalote.


Que a luxúria poreje de áureos cachos
E eu um vinho de sol beba aos riachos.


Virgem, Regina, Eucaristia, Coeli,
Vinho é o clarão que teu Amor impele.


Que desabrocha ensangüentadas rosas
Dentro das naturezas luminosas.


Ó Regina do Mar! Coeli! Regina!
Ó Lâmpada das naves do Infinito!
Todo o Mistério azul desta Surdina
Vem d’estranhos Missais de um novo Rito!...



Sonho Branco

De linho e rosas brancas vais vestido,
Sonho virgem que cantas no meu peito!...
És do Luar o claro deus eleito,
Das estrelas puríssimas nascido.


Por caminho aromal, enflorescido,
Alvo, sereno, límpido, direito,
Segues radiante, no esplendor perfeito,
No perfeito esplendor indefinido...


As aves sonorizam-te o caminho...
E as vestes frescas, do mais puro linho
E as rosas brancas dão-te um ar nevado...


No entanto, Ó Sonho branco de quermesse!
Nessa alegria em que tu vais, parece
Que vais infantilmente amortalhado!



Canção da Formusura

Vinho de sol ideal canta e cintila
Nos teus olhos, cintila e aos lábios desce,
Desce a boca cheirosa e a empurpurece,
Cintila e canta após dentre a pupila.


Sobe, cantando, a limpidez tranqüila
Da tu'alma estrelada e resplandece,
Canta de novo e na doirada messe
Do teu amor, se perpetua e trila...


Canta e te alaga e se derrama e alaga...
Num rio de ouro, iriante, se propaga
Na tua carne alabastrina e pura.


Cintila e canta na canção das cores,
Na harmonia dos astros sonhadores,
A Canção imortal da Formosura!



Torre de Ouro

Desta torre desfraldam-se altaneiras,
Por sóis de céus imensos broqueladas,
Bandeiras reais, do azul das madrugadas
E do íris flamejante das poncheiras.


As torres de outras regiões primeiras
No Amor, nas Glórias vãs arrebatadas
Não elevam mais alto, desfraldadas,
Bravas, triunfantes, imortais bandeiras.


São pavilhões das hostes fugitivas,
Das guerras acres, sanguinárias, vivas,
Da luta que os Espíritos ufana.


Estandartes heróicos, palpitantes,
Vendo em marcha passe aniquilantes
As torvas catapultas do Nirvana!



Carnal e Místico

Pelas regiões tenuíssimas da bruma
Vagam as Virgens e as Estrelas raras...
Como que o leve aroma das searas
Todo o horizonte em derredor perfume.


N'uma evaporação de branca espuma
Vão diluindo as perspectives claras...
Com brilhos crus e fúlgidos de tiaras
As Estrelas apagam-se uma a uma.


E então, na treva, em místicas dormências
Desfila, com sidéreas lactescências,
Das Virgens o sonâmbulo cortejo...


Ó Formas vagas, nebulosidades!
Essência das eternas virgindades!
Ó intensas quimeras do Desejo...



A Dor

Torva Babel das lágrimas, dos gritos,
Dos soluços, dos ais, dos longos brados,
A Dor galgou os mundos ignorados,
Os mais remotos, vagos infinitos.


Lembrando as religiões, lembrando os ritos,
Avassalara os povos condenados,
Pela treva, no horror, desesperados,
Na convulsão de Tântalos aflitos.


Por buzinas e trompas assoprando
As gerações vão todas proclamando
A grande Dor aos frígidos espaços...


E assim parecem, pelos tempos mudos,
Raças de Prometeus titânios, rudos,
Brutos e colossais, torcendo os braços!


Próxima (7)    Anterior (5)


Índice das poesias





Google
 
Web www.eurooscar.com

www.NewWordGames.com - Author: Euro Oscar - © 2008
All Rights Reserved - Contact: eurooscar@gmail.com


Se veio até aqui por um link externo e não vê o menu fixo à esquerda, clique aqui, para melhor usar e controlar o site.


Página inicial do site