Fernando Pessoa - 15



Cancioneiro: parte 2 do site



ÍNDICE

Ao longe, ao luar
Aqui onde se espera
As horas pela alameda
As minhas Ansiedades
Assim, sem nada feito e o por fazer
As tuas mãos terminam em segredo
Às vezes entre a tormenta
Atravessa esta paisagem o meu sonho





Ao longe, ao luar

Ao longe, ao luar,
No rio uma vela,
Serena a passar,
Que é que me revela ?


Não sei, mas meu ser
Tornou-se-me estranho,
E eu sonho sem ver
Os sonhos que tenho.


Que angústia me enlaça ?
Que amor não se explica ?
É a vela que passa
Na noite que fica.



Aqui onde se espera

Aqui onde se espera
- Sossego, só sossego -
Isso que outrora era,


Aqui onde, dormindo,
-Sossego, só sossego-
Se sente a noite vindo,


E nada importaria
-Sossego, só sossego-
Que fosse antes o dia,


Aqui, aqui estarei
-Sossego, só sossego -
Como no exílio um rei,


Gozando da ventura
- Sossego, só sossego -
De não ter a amargura


De reinar, mas guardando
- Sossego, só sossego -
O nome venerando...


Que mais quer quem descansa
- Sossego, só sossego -
Da dor e da esperança,


Que ter a negação
- Sossego, só sossego -
De todo o coração ?



As horas pela alameda

As horas pela alameda
Arrastam vestes de seda,


Vestes de seda sonhada
Pela alameda alongada


Sob o azular do luar...
E ouve-se no ar a expirar -


A expirar mas nunca expira -
Uma flauta que delira,


Que é mais a idéia de ouvi-la
Que ouvi-la quase tranqüila


Pelo ar a ondear e a ir...
Silêncio a tremeluzir...



As minhas Ansiedades

As minhas ansiedades caem
Por uma escada abaixo.
Os meus desejos balouçam-se
Em meio de um jardim vertical.


Na Múmia a posição é absolutamente exata.
Música longínqua,


Música excessivamente longínqua,
Para que a Vida passe
E colher esqueça aos gestos.



Assim, sem nada feito e o por fazer

Assim, sem nada feito e o por fazer
Mal pensado, ou sonhado sem pensar,
Vejo os meus dias nulos decorrer,
E o cansaço de nada me aumentar.


Perdura, sim, como uma mocidade
Que a si mesma se sobrevive, a esperança,
Mas a mesma esperança o tédio invade,
E a mesma falsa mocidade cansa.


Tênue passar das horas sem proveito,
Leve correr dos dias sem ação,
Como a quem com saúde jaz no leito
Ou quem sempre se atrasa sem razão.


Vadio sem andar, meu ser inerte
Contempla-me, que esqueço de querer,
E a tarde exterior seu tédio verte
Sobre quem nada fez e nada quere.


Inútil vida, posta a um canto e ida
Sem que alguém nela fosse, nau sem mar,
Obra solentemente por ser lida,
Ah, deixem-se sonhar sem esperar!



As tuas mãos terminam em segredo

As tuas mãos terminam em segredo.
Os teus olhos são negros e macios
Cristo na cruz os teus seios (?) esguios
E o teu perfil princesas no degredo...


Entre buxos e ao pé de bancos frios
Nas entrevistas alamedas, quedo
O vendo põe o seu arrastado medo
Saudoso o longes velas de navios.


Mas quando o mar subir na praia e for
Arrasar os castelos que na areia
As crianças deixaram, meu amor,


Será o haver cais num mar distante...
Pobre do rei pai das princesas feias
No seu castelo à rosa do Levante !



Às vezes entre a tormenta

Às vezes entre a tormenta,
quando já umedeceu,
raia uma nesga no céu,
com que a alma se alimenta.


E às vezes entre o torpor
que não é tormenta da alma,
raia uma espécie de calma
que não conhece o langor.


E, quer num quer noutro caso,
como o mal feito está feito,
restam os versos que deito,
vinho no copo do acaso.


Porque verdadeiramente
sentir é tão complicado
que só andando enganado
é que se crê que se sente.


Sofremos? Os versos pecam.
Mentimos? Os versos falham.
E tudo é chuvas que orvalham
folhas caídas que secam.



Atravessa esta paisagem o meu sonho

Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito
E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios
Que largam do cais arrastando nas águas por sombra
Os vultos ao sol daquelas árvores antigas...


O porto que sonho é sombrio e pálido
E esta paisagem é cheia de sol deste lado...
Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol...


Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...
O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro...


Não sei quem me sonho...
Súbito toda a água do mar do porto é transparente
E vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse
desdobrada,
Esta paisagem toda, renque de árvore, estrada a arder em aquele
porto,
E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma...


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Fontes

http://www.cfh.ufsc.br/~magno/cancioneiro.htm e Ciberfil Literatura Digital
Versão para Adobe Acrobat Reader por Rodolfo S. Cassaca, março de 2002.
www.ciberfil.hpg.ig.com.br - E-mail: ciberfil@yahoo.com
Permitida a cópia e distribuição, com os créditos acima.


Nota adicional de Euro Oscar

Adaptado para HTML mesclado com CSS por Euro Oscar C. Nogueira,
mantendo-se o teor dos textos originais, em novembro de 2008.
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