Fernando Pessoa - 19



Cancioneiro: parte 6 do site



ÍNDICE

Da minha idéia do mundo
De onde é quase o horizonte
De quem é o olhar
Ditosos a quem acena (Marinha)
Dizem que finjo ou minto
Dizem?
Dobre
Dorme enquanto eu velo...





Da minha idéia do mundo

Da minha idéia do mundo
Caí...


Vácuo além do profundo,
Sem ter Eu nem Ali...
Vácuo sem si-próprio, caos
De ser pensado como ser...
Escada absoluta sem degraus...
Visão que se não pode ver...


Além-Deus ! Além-Deus! Negra calma...
Clarão do Desconhecido...
Tudo tem outro sentido, ó alma,
Mesmo o ter-um-sentido...



De onde é quase o horizonte

De onde é quase o horizonte
Sobe uma névoa ligeira
E afaga o pequeno monte
Que pára na dianteira.


E com braços de farrapo
Quase invisíveis e frios,
Faz cair seu ser de trapo
Sobre os contornos macios.


Um pouco de alto medito
A névoa só com a ver.
A vida? Não acredito.
A crença? Não sei viver.



De quem é o olhar

De quem é o olhar
Que espreita por meus olhos ?
Quando penso que vejo,
Quem continua vendo
Enquanto estou pensando ?
Por que caminhos seguem,
Não os meus tristes passos,
Mas a realidade
De eu ter passos comigo ?


Às vezes, na penumbra
Do meu quarto, quando eu
Por mim próprio mesmo
Em alma mal existo,


Toma um outro sentido
Em mim o Universo -
É uma nódoa esbatida
De eu ser consciente sobre
Minha idéia das coisas.


Se acenderem as velas
E não houver apenas
A vaga luz de fora-
Não sei que candeeiro
Aceso onde na rua-
Terei foscos desejos
De nunca haver mais nada
No Universo e na Vida
De que o obscuro momento
Que é minha vida agora!


Um momento afluente
Dum rio sempre a ir
Esquecer-se de ser,
Espaço misterioso
Entre espaços desertos
Cujo sentido é nulo
E sem ser nada a nada.
E assim a hora passa
Metafisicamente.



Ditosos a quem acena
Marinha

Ditosos a quem acena
Um lenço de despedida !
São felizes : têm pena...
Eu sofro sem pena a vida.


Dôo-me até onde penso,
E a dor é já de pensar,
Órfão de um sonho suspenso
Pela maré a vazar...


E sobe até mim, já farto
De improfícuas agonias,
No cais de onde nunca parto,
A maresia dos dias.



Dizem que finjo ou minto

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.


Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
Écomo que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.


Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é,
Sentir, sinta quem lê !



Dizem?

Dizem?
Esquecem.
Não dizem ?
Disseram.


Fazem?
Fatal.
Não fazem?
Igual.


Por quê
Esperar ?
Tudo é
Sonhar.



Dobre

Peguei no meu coração
E pu-lo na minha mão


Olhei-o como quem olha
Grãos de areia ou uma folha.


Olhei-o pávido e absorto
Como quem sabe estar morto;


Com a alma só comovida
Do sonho e pouco da vida.



Dorme enquanto eu velo...

Dorme enquanto eu velo...
Deixa-me sonhar...
Nada em mim é risonho.
Quero-te para sonho,
Não para te amar.


A tua carne calma
É fria em meu querer.
Os meus desejos são cansaços.
Nem quero ter nos braços
Meu sonho do teu ser.


Dorme, dorme, dorme,
Vaga em teu sorrir...
Sonho-te tão atento
Que o sonho é encantamento
E eu sonho sem sentir.


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Fontes

http://www.cfh.ufsc.br/~magno/cancioneiro.htm e Ciberfil Literatura Digital
Versão para Adobe Acrobat Reader por Rodolfo S. Cassaca, março de 2002.
www.ciberfil.hpg.ig.com.br - E-mail: ciberfil@yahoo.com
Permitida a cópia e distribuição, com os créditos acima.


Nota adicional de Euro Oscar

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mantendo-se o teor dos textos originais, em novembro de 2008.
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