POESIAS DE FERNANDO PESSOA - 2.

ÍNDICE

AH, MAS AQUI ONDE IRREAIS ERRAMOS;
MEU CORAÇÃO É UM ALMIRANTE
LOUCO;
PRAÇA DA FIGUEIRA DE MANHÃ;
BARROW-ON-FURNESS II;
BARROW-ON-FURNESS IV



AH, MAS AQUI ONDE IRREAIS ERRAMOS

Ah, mas aqui, onde irreais erramos,
Dormimos o que somos, e a verdade,
Inda que enfim em sonhos a vejamos,
Vemo-la, porque em sonho, em falsidade.


Sombras buscando corpos, se os achamos
Como sentir a sua realidade?
Com mãos de sombra, sombras, que tocamos?
Nosso toque é ausência e vacuidade.


Quem desta alma fechada nos liberta?
Sem ver, ouvimos para além da sala
De ser: mas como, aqui, a porta aberta?


Calmo na falsa morte a nós exposto,
O Livro ocluso contra o peito posto,
Nosso Pai Rosacruz conhece e cala.

MEU CORAÇÃO É UM ALMIRANTE LOUCO

Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear...


No movimento (eu mesmo me desloco
nesta cadeira, só de o imaginar)
o mar abandonado fica em foco
nos músculos cansados de parar.


Há saudades nas pernas e nos braços.
Há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.


Mas - esta é boa! - era do coração
que eu falava... e onde diabo estou eu agora
com almirante em vez de sensação?...

A PRAÇA DA FIGUEIRA DE MANHÃ

A praça da Figueira de manhã,
Quando o dia é de sol (como acontece
Sempre em Lisboa), nunca em mim esquece,
Embora seja uma memória vã.


Há tanta coisa mais interessante
Que aquele lugar lógico e plebeu,
Mas amo aquilo, mesmo aqui ... Sei eu
Por que o amo? Não importa. Adiante ...


Isto de sensações só vale a pena
Se a gente se não põe a olhar para elas.
Nenhuma delas em mim serena...


De resto, nada em mim é certo e está
De acordo comigo próprio. As horas belas
São as dos outros ou as que não há.

BARROW-ON-FURNESS II

Deuses, forças, almas de ciência ou fé,
Eh! Tanta explicação que nada explica!
Estou sentado no cais, numa barrica,
E não compreendo mais do que de pé.


Por que o havia de compreender?
Pois sim, mas também por que o não havia?
Água do rio, correndo suja e fria,
Eu passo como tu, sem mais valer...


Ó universo, novelo emaranhado,
Que paciência de dedos de quem pensa
Em outras cousas te põe separado?


Deixa de ser novelo o que nos fica...
A que brindar? Ao amor?, à indif'rença?
Por mim, só me levanto da barrica.

BARROW-ON-FURNESS IV

Conclusão a sucata! ... Fiz o cálculo,
Saiu-me certo, fui elogiado...
Meu coração é um enorme estrado
Onde se expõe um pequeno animálculo


A microscópio de desilusões
Findei, prolixo nas minúcias fúteis...
Minhas conclusões Drásticas, inúteis...
Minhas conclusões teóricas, confusões...


Que teorias há para quem sente
o cérebro quebrar-se, como um dente
Dum pente de mendigo que emigrou?


Fecho o caderno dos apontamentos
E faço riscos moles e cinzentos
Nas costas do envelope do que sou ...

Fernando Pessoa 1


Fernando Pessoa 3


Fernando Pessoa 4


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