Fernando Pessoa - 26



Cancioneiro: parte 13 do site



ÍNDICE

Sonho. Não sei quem sou.
Sorriso audível das folhas
Tenho Tanto Sentimento
Teus olhos entristecem
Tomamos a Vila depois de um Intenso bombardeamento
Vaga, no azul amplo solta





Sonho. Não sei quem sou.

Sonho. Não sei quem sou neste momento.
Durmo sentindo-me. Na hora calma
Meu pensamento esquece o pensamento,
            Minha alma não tem alma.


Se existo é um erro eu o saber. Se acordo
Parece que erro. Sinto que não sei.
Nada quero nem tenho nem recordo.
            Não tenho ser nem lei.


Lapso da consciência entre ilusões,
Fantasmas me limitam e me contêm.
Dorme insciente de alheios corações,
            Coração de ninguém.



Sorriso audível das folhas

Sorriso audível das folhas
Não és mais que a brisa ali
Se eu te olho e tu me olhas,
Quem primeiro é que sorri?
O primeiro a sorrir ri.


Ri e olha de repente
Para fins de não olhar
Para onde nas folhas sente
O som do vento a passar
Tudo é vento e disfarçar.


Mas o olhar, de estar olhando
Onde não olha, voltou
E estamos os dois falando
O que se não conversou
Isto acaba ou começou?



Tenho Tanto Sentimento

Tenho tanto sentimento
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.


Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.


Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.



Teus olhos entristecem

Teus olhos entristecem
Nem ouves o que digo.
Dormem, sonham esquecem...
Não me ouves, e prossigo.


Digo o que já, de triste,
Te disse tanta vez...
Creio que nunca o ouviste
De tão tua que és.


Olhas-me de repente
De um distante impreciso
Com um olhar ausente.
Começas um sorriso.


Continuo a falar.
Continuas ouvindo
O que estás a pensar,
Já quase não sorrindo.


Até que neste ocioso
Sumir da tarde fútil,
Se esfolha silencioso
O teu sorriso inútil.



Tomamos a Vila depois de um Intenso Bombardeamento

A criança loura
Jaz no meio da rua.
Tem as tripas de fora
E por uma corda sua
Um comboio que ignora.


A cara está um feixe
De sangue e de nada.
Luz um pequeno peixe
— Dos que bóiam nas banheiras —
À beira da estrada.


Cai sobre a estrada o escuro.
Longe, ainda uma luz doura
A criação do futuro...


E o da criança loura?



Vaga, no azul amplo solta

Vaga, no azul amplo solta,
Vai uma nuvem errando.
O meu passado não volta.
Não é o que estou chorando.


O que choro é diferente.
Entra mais na alma da alma.
Mas como, no céu sem gente,
A nuvem flutua calma.


E isto lembra uma tristeza
E a lembrança é que entristece,
Dou à saudade a riqueza
De emoção que a hora tece.


Mas, em verdade, o que chora
Na minha amarga ansiedade
Mais alto que a nuvem mora,
Está para além da saudade.


Não sei o que é nem consinto
À alma que o saiba bem.
Visto da dor com que minto
Dor que a minha alma tem.


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Fontes

http://www.cfh.ufsc.br/~magno/cancioneiro.htm e Ciberfil Literatura Digital
Versão para Adobe Acrobat Reader por Rodolfo S. Cassaca, março de 2002.
www.ciberfil.hpg.ig.com.br - E-mail: ciberfil@yahoo.com
Permitida a cópia e distribuição, com os créditos acima.


Nota adicional de Euro Oscar

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mantendo-se o teor dos textos originais, em novembro de 2008.
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