Fernando Pessoa - 8


Alberto Caeiro (heterônimo)



O Guardador de Rebanhos - parte 4 do site



ÍNDICE

IX - Sou um Guardador de Rebanhos;
X - Olá, Guardador de Rebanhos;
XI - Aquela Senhora tem um Piano;
XII - Os Pastores de Virgílio;
XIII - Leve;
XIV - Não me Importo com as Rimas;
XV - As Quatro Canções;
XVI - Quem me Dera;
XVII - No meu Prato;
XVIII - Quem me Dera que eu Fosse o Pó da Estrada;
XIX - O Luar





IX - Sou um Guardador de Rebanhos

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.


Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.


Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,


Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

X - Olá, Guardador de Rebanhos

"Olá, guardador de rebanhos,
Aí à beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?"


"Que é vento, e que passa,
E que já passou antes,
E que passará depois.
E a ti o que te diz?"


"Muita cousa mais do que isso.
Fala-me de muitas outras cousas.
De memórias e de saudades
E de cousas que nunca foram."


"Nunca ouviste passar o vento.
O vento só fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
E a mentira está em ti."

XI - Aquela Senhora tem um Piano

Aquela senhora tem um piano
Que é agradável mas não é o correr dos rios
Nem o murmúrio que as árvores fazem...


Para que é preciso ter um piano?
O melhor é ter ouvidos
E amar a Natureza.

XII - Os Pastores de Virgílio

Os pastores de Virgílio tocavam avenas e outras cousas
E cantavam de amor literariamente.
(Depois — eu nunca li Virgílio.
Para que o havia eu de ler?)


Mas os pastores de Virgílio, coitados, são Virgílio,
E a Natureza é bela e antiga.

XIII - Leve

Leve, leve, muito leve,
Um vento muito leve passa,
E vai-se, sempre muito leve.
E eu não sei o que penso
Nem procuro sabê-lo.

XIV - Não me Importo com as Rimas

Não me importo com as rimas. Raras vezes.
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.
Penso e escrevo como as flores têm cor.
Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade divina
De ser todo só o meu exterior


Olho e comovo-me,
Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado,
E a minha poesia é natural corno o levantar-se vento...

XV - As Quatro Canções

As quatro canções que seguem
Separam-se de tudo o que eu penso,
Mentem a tudo o que eu sinto,
São do contrário do que eu sou...


Escrevi-as estando doente
E por isso elas são naturais
E concordam com aquilo que sinto,
Concordam com aquilo com que não concordam...
Estando doente devo pensar o contrário
Do que penso quando estou são.
(Senão não estaria doente),
Devo sentir o contrário do que sinto
Quando sou eu na saúde,
Devo mentir à minha natureza
De criatura que sente de certa maneira...
Devo ser todo doente — idéias e tudo.
Quando estou doente, não estou doente para outra cousa.


Por isso essas canções que me renegam
Não são capazes de me renegar
E são a paisagem da minha alma de noite,
A mesma ao contrário...

XVI - Quem me Dera

Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois
Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada,
E que para de onde veio volta depois
Quase à noitinha pela mesma estrada.


Eu não tinha que ter esperanças — tinha só que ter rodas...
A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco...
Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas
E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.

XVII - No meu Prato

No meu prato que mistura de Natureza!
As minhas irmãs as plantas,
As companheiras das fontes, as santas
A quem ninguém reza...


E cortam-as e vêm à nossa mesa
E nos hotéis os hóspedes ruidosos,
Que chegam com correias tendo mantas
Pedem "Salada", descuidosos...,
Sem pensar que exigem à Terra-Mãe
A sua frescura e os seus filhos primeiros,
As primeiras verdes palavras que ela tem,
As primeiras cousas vivas e irisantes
Que Noé viu
Quando as águas desceram e o cimo dos montes
Verde e alagado surgiu
E no ar por onde a pomba apareceu
O arco-íris se esbateu...

XVIII - Quem me Dera que eu Fosse o Pó da Estrada

Quem me dera que eu fosse o pó da estrada
E que os pés dos pobres me estivessem pisando...


Quem me dera que eu fosse os rios que correm
E que as lavadeiras estivessem à minha beira...


Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio
E tivesse só o céu por cima e a água por baixo...


Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro
E que ele me batesse e me estimasse...


Antes isso que ser o que atravessa a vida
Olhando para trás de si e tendo pena...

XIX - O Luar

O luar quando bate na relva
Não sei que cousa me lembra...
Lembra-me a voz da criada velha
Contando-me contos de fadas.
E de como Nossa Senhora vestida de mendiga
Andava à noite nas estradas Socorrendo as crianças maltratadas...


Se eu já não posso crer que isso é verdade, Para que bate o luar na relva?


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Fonte

http://www.cfh.ufsc.br/~magno/guardador.htm)




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