POESIAS DE JG DE ARAÚJO JORGE - 10

SAUDADE
SOLIDÃO
SURPRESA
TRISTE
TUDO ESQUEÇO
VOLTASTE
VOLTEI!



SAUDADE

No silêncio das noites estreladas,
na solidão das trevas, eu perscruto
a voz que triste, sossegado, escuto
na língua misteriosa das ramadas...


Na beleza das noites enluaradas,
quando o espaço perdendo o negro luto
banha-se em prata, e o seu semblante hirsuto
desfaz-se em gazes tênues nas quebradas,


é que eu procuro ser feliz um pouco...
Talvez, quem sabe, eu seja um grande louco,
- não sei se de mentira ou de verdade...


De uma cousa, porém, creio, estou certo:
- é que eu quisera ver, de mim, bem perto
o alguém que me põe louco de saudade!...



SOLIDÃO

Um frio enorme esta minha alma corta,
e eu me encolho em mim mesmo: - a solidão
anda lá fora, e o vento à minha porta
passa arrastando as folhas pelo chão...


Nesta noite de inverno fria e morta,
em meio ao neblinar da cerração,
o silêncio, que o espírito conforta,
exaspera a minha alma de aflição...


As horas vão passando em abandono,
e entre os frios lençóis onde me deito
em vão tento conciliar o sono


A cama é fria... O quarto úmido e triste...
- Há uma noite de inverno no meu peito,
desde o instante cruel em que partiste...



SURPRESA

Começamos assim: - eu, tendo em mente
fingir gostar apenas: namorar,
como chamam na vida comumente
aos primeiros encontros de algum par...


Tu, disposta a prender-me ao teu olhar
por um mero capricho e, fatalmente,
depois que eu me curvasse a te adorar
trocar-me-ias por outro facilmente...


Começamos assim - logo, no entanto
- aquilo que pensei, não consegui,
nem conseguiste o que querias tanto...


E afinal - que belíssima surpresa!...
- Eu, de tanto fingir: – gostei de ti,
tu, querendo prender: - ficaste presa!...



TRISTE

Eu hoje acordei triste, - há certos dias
em que sinto esta mesma sensação...
E não sei explicar, qual a razão
porque as mãos com que escrevo estão tão frias...


E pergunto a mim mesmo: - tu não rias
ainda ontem tão feliz... diz-me então
por que sentes pulsar teu coração
destoando das humanas alegrias?...


E, nem eu sei dizer por que estou triste...
Quem me olha não calcula com certeza,
o imenso caos que no meu peito existe...


A tristeza que eu sinto ninguém vê...
- E a maior das tristezas é a tristeza
que a gente sente sem saber por quê!...



TUDO ESQUEÇO

Tudo posso esquecer em minha vida
inquieta e livre como uma enxurrada:
- a ilusão, num segundo, mais querida...
- a mulher, num segundo, mais amada...


a visão de algum trecho azul da estrada
entre ternos carinhos percorrida;
- uma história que um dia interrompida
nunca mais afinal foi terminada!


Os desejos... os sonhos... os amores...
que julgo eternos, e que por enquanto
despetalam-se e morrem como flores...


Esqueço tudo! O que passou, morreu!
Só não consigo me esquecer no entanto
da primeira mulher que me esqueceu...



VOLTASTE

- Voltaste! eu disse - e pelos céus em bando
a passarada a gorjear: - "voltou!"
E o rio, sobre a terra, deslizando:
- "ela chegou..." E o mar... "- ela chegou..."


E o vento: "há muito que a esperando estou!"
E as flores em botão desabrochando:
- "ela vem nos colher!..." "E ela sonhou
aqui", disse a varanda... E a estrada: "- quando


ela passar, hei de ficar florida!..."
E as matas: "- novamente ela há de vir
procurar nossa sombra apetecida..."


e o céu e a terra e o mar "- vamos revê-la..."
E eu feliz: - no meu céu há de surgir
pelas noites de luar mais uma estrela!...



VOLTEI!

Voltei! Quantas lembranças revividas!
Quantos sonhos que há muito já sonhei...
Aqui, o velho muro onde deixei
as velhas datas que me são queridas...


Ali, o campo; adiante, onde eu brinquei:
- o quintal... o regato... as margaridas...
Tudo meras visões, hoje perdidas,
- de uma história de fada onde eu fui rei...


Voltei! Que estranho misto de tristeza
e de alegria, encheu-me o peito, quando
revi da infância a antiga natureza...


Que dor no entanto sepultei comigo,
ao ver que o tempo, a sós, vai apagando
a história azul daquele mundo antigo!...



(Fonte:
"Meu Céu Interior", 1ª ed., set. de 1934.)



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