POESIAS DE JG DE ARAÚJO JORGE - 5

DEUS!



DEUS!
(O Poema de duas gerações)

Meu pai: "quando ergo a fronte aos céus, quando reflito
no que pôs a existir para além do infinito
dentro do próprio céu - fico cismando a esmo
a sondar o meu "eu", perguntando a mim mesmo
se afinal devo crer que esse Cosmos surgiu
de um Deus, ou se em verdade, ele sempre existiu...
E depois, ao baixar a vista à Natureza
que envolve toda a terra, e a cobre com a beleza
de infindáveis painéis... de quadros e visões,
- não sei como tirar as minhas conclusões!
E, fico a duvidar de que de fato exista
esse Deus magistral, mais do que Deus - artista!"


Meu filho: "- a terra, o céu, os seres, tudo enfim,
em deus teve princípio e em Deus terá seu fim...
Foi Deus quem fez o céu azul, fez verde o mar;
deu-te o ser para a vida e a luz para pensar;
pos astros na amplidão; no oceano murmúrios;
- as árvores... o sol... os pássaros... os rios...
as florestas... o vento... os pensamentos meus
nem sou eu quem os diz, meu filho - é o próprio Deus!
Isso tudo que vês, que sentes, que imaginas,
principiou nesse Deus, tem origens divinas;
- do átomo de pó, invisível, sem cor,
ao homem - que é a criação perfeita e superior!..."


- Mas, pai, de que fez Deus o mundo? - O céu a terra,
e tudo isso que vejo e que o Universo encerra,
não podiam jamais do Nada ter surgido.
Por maior que o poder de Deus houvesse sido,
atingir não concebo esse imenso poder,
a ponto de supor que a origem do meu ser
a natureza, os céus, a minha alma, o meu senso,
surgiram do Nirvana... É em vão... Não me convenço!..."


(O Pai)
- "Se há oceanos, se há céus, se há terras e se há seres,
e em Deus não queres crer, então, como entenderes
a origem do Universo? - E, como hás de explicar
este céu... esta terra... este sol... este mar?...
E o espírito que tens?... E os milagrosos dons
das cousas: - o perfume... o tato... o gosto... os sons...
as cores... tudo mais, o nosso mundo, enfim,
- quem teria poder para faze-lo assim?
Escuta-me, meu filho: - é Deus o único autor
de toda esta beleza... e todo este esplendor!..."


(O Filho)
- Não sei acreditar; mas, esse Deus jamais
surgiu , para afirmar aos míseros mortais,
ser o autor da Criação. A obra-prima que fez
é aquela onde afinal, há mais erros talvez...
- Por que o homem é assim tão cheio de defeitos
se Deus o quis fazer, perfeito entre os perfeitos?...
Se o mundo onde ele o pôs, é uma obra magistral
de beleza sem par - como pode o que é mal
crescer, multiplicar, sob as vistas desse Ente,
- que, sendo superior... que, sendo onipotente,
deveria fazer sentir à humanidade
sua força, empregando a justiça e a verdade,
impedindo que os bons sofressem pelos maus?
O mundo como está - esse intrincado caos
de lutas, onde o amor fenece dia a dia,
e o ódio vai crescendo, e a miséria e a agonia
seus passos vão seguindo - é a prova mais veemente
de que esse Deus tão bom, tão justo, tão clemente
não podia ter feito uma obra sobre a qual
não pode, nem sequer, ter domínio, afinal..."


(O Pai)
- Meu Filho: não discuto a fé pela razão.
Aliás, deves saber, tão profunda questão
é das tais que hão de ser eternas, e a meu ver,
resumem-se, afinal, na fé: crer a ou não crer.
Não procures buscar as origens dos fatos:
- contenta-te a viver; não tires dos teus atos
nenhuma conclusão: - do contrário terás
que apelar para um Deus e o não encontrarás...
Sem Ele, um horizonte há de estreitar-te a vista,
viverás preso à cousa, um vil materialista,
sem alma, sem sentir, sem asas para alçar
um vôo de condor e sobre o ideal pairar...
As belezas do espírito, as suaves vibrações
da nossa natureza: - o amor, as emoções,
hás de então resumir na carne... na matéria...
bestializando o Ser... Viverás na miséria,
- teu destino será como o de um cão vadio
andando pela noite a tiritar de frio
sem abrigo e sem rumo... Um dia, quase morto
sentirás a tua alma ansiosa de conforto
-e em vão!... Hás de encontrar ao teu redor, por certo,
a mesma solidão que habita num deserto!...
Teu corpo há de ficar como um templo sem dono
em ruínas pelo mundo, e em teu triste abandono
tentarás elevar aos céus a tua prece...
- Ninguém te atenderá!... Isto sempre acontece
aqueles que sem fé perderam-se na vida,
e não puderam mais achar a alma perdida!...
Pensa muito, meu filho: - a crença é a salvação.
Aquele que tem fé - que segue a religião
de um Deus que por ser bom nunca foi compreendido
será sempre feliz... Se chorar, seu gemido
há de um eco encontrar... e o consolo na crença
tornará sua dor menor, menos intensa...
O Deus em que eu creio, é um Deus que me faz forte,
sem Ele, como um barco a navegar sem norte,
eu seria um perdido ... Escuta-me meu filho:
- se ainda tenho no olhar o mesmo ardente brilho
que tens em teu olhar de moço, é porque na alma,
apesar de cansada há a fé que a torna calma,
e a luz que a faz brilhar sob a chama do amor...
Na idade em que me vês, sou o mesmo sonhador
do tempo em que ainda tinha apenas meus vinte anos,
quando a mente guardava os mais dourados planos
que a vida transtornou... No entanto - sou feliz;
sofri muito, é verdade - o mundo assim o quis,
mas nunca me senti vencido e abandonado,
tendo a fé nesse Deus... sabendo-o ao meu lado!
Lutei muito por nós... Lutei muito por ti,
desde o instante primeiro em que teus olhos vi
abertos para a luz ... abertos para a vida!
És jovem: - tua rota é enorme e indefinida...
Agora, podes ir - reflete no que eu digo:
quem te fala é o teu pai - o teu melhor amigo...
"Olha o céu... olha o mar... olha o sol... olha a terra...
da planície mais baixa à mais altiva serra..."
"Ouve o inseto que voa..." "A luz dos vaga-lumes..."
"As flores, desdobrando intensos e perfumes..."
"Admira a catarata em quedas despencando..."
"Fita o azul... lá no azul há pássaros em bando
em revoadas pelo ar..." "As noites enluaradas..."
"As nuvens pelo céu em gotas destiladas..."
"A gêmula rompendo a teta da semente,
surgindo à luz do sol... depois, continuamente,
a subir e a crescer..." "Observa o que tu és..."
"Sente o solo e a riqueza embaixo dos teus pés,
onde o negro carvão transforma-se em diamante..."
"Olha o sol como um rei lá na amplitude distante..."
"As estrelas, além, em outras atmosferas..."
"Cometas relembrando o perpassar das eras..."
Enfim - isto que tu chamaste de Universo,
é o sentido de Deus, um sentido diverso
pois reúne afinal todos os teus num só!
Convence-te, meu filho... És como um grão de pó!...
Deus, hoje, te deu vida, e amanhã se quiser,
far-te-á voltar ao pó, sem perguntar sequer
se estás contrário ou não ... E tudo é igual, é assim,
- só Deus faz de um princípio, o princípio de um fim!..."


(O Filho)
- "É possível, meu pai, que o que disseste seja
a verdade e a razão... Talvez minha alma esteja
a fugir de mim mesmo - eu sinto bem, no entanto
que esse Deus singular a quem elevas tanto,
para o mundo é somente um desses elementos
nos quais o homem confia em rápidos momentos
de perigo e de dor... O medo então domina
e ele perde a razão - tem fé, não raciocina...
Em resumo, eis a crença... Os símbolos, os santos,
não fazem ninguém crer - dos crente, que são tantos,
não há talvez um só, que sinta intimamente
uma crença real... A humanidade sente
o temor... o receio... o medo ... a covardia...
- o mesmo sentimento inculto que fazia
um índio olhar um raio e exclamar por Tupã!...
Eu sou livre, meu pai... A minha alma é pagã...
Não tem Deus... Olha o céu ... olha a terra... olha o mar...
e aprendeu a viver... e aprendeu a cantar...
A vida que ela sente, o mundo que ela vê, é tudo.
Não quer mais... Tenho a alma de uma fonte
vou passando a cantar de horizonte a horizonte,
- e ninguém me ensinou... No meu seio de prata
há a beleza de um céu que nele se retrata:
agora, na planície imensa da campina;
depois, numa floresta; além, numa colina;
vou passando a cantar... vou cantando e seguindo,
no meu canto o infinito e as cousas refletindo
Não sei para onde vou... Não sei onde nasci...
De onde venho não sei... Se passo por aqui
é que um leito encontrei... Serpenteio nos campos,
- nas noites tropicais, a luz dos pirilampos
e as estrelas do céu vêm fundir-se em meu seio ...
Sou bem como essa fonte - vivo mas não creio!...
Vou correndo a rolar... Minhas águas ligeiras
não sabem se amanhã, no ruir das cachoeiras,
seu leito, vão rasgar... Vão seguindo... sonhando...
vão correndo por si, ninguém as vai levando,
e elas vivem no entanto a correr e a passar
até que chegue a morte... até que chegue o mar!...
No fundo do meu Ser, há toda esta beleza
de uma fonte pagã, sentindo a natureza
de tudo o que a rodeia... Hás de dizer, meu pai,
que essa fonte feliz que a marulhar se vai,
foi Deus que a fez brotar da rocha empedernida,
dando as águas à fonte e dando à rocha a vida...
Pois bem. Suponho crer nos pensamentos teus:


- Deus fez a fonte a a mim - mas de onde surgiu Deus?
Que Deus maior o fez? como Ele fez ao mundo?
De que cosmos final, é esse teu Deus oriundo?
Em que canto do céu, que me ouve e não responde
na aflição do meu brado e na voz do meu grito?
- Em que Universo habita esse Ser infinito?
São perguntas, meu pai - não há quem as escute,
bem sei que bato em vão: - no espaço não percute
a Razão martelando a bigorna da Fé!...
O crente silencia, e o silencio não é
senão esta incerteza e a dúvida do estado
de espírito, em que fica um pobre desgraçado
sentindo em desespera a luta da consciência
entre as luzes da fé e as verdades da ciência!
O Deus, em que tu crês, é a fácil solução
que pretende resolver, sem dar explicação,
a origem da existência... É forte... é poderoso...
- mas não deixa de ser estranho e duvidoso!
Se olho a terra e olho o céu - fico cismando a esmo,
e sondando o meu "eu" interpelo a mim mesmo,
se afinal devo crer que isto tudo surgiu
de um Deus, ou se em verdade, isso sempre existiu!
E fico a duvidar de que de fato exista,
esse Deus magistral, mais que Deus: - artista!"


Meu filho: - "o mar, o céu, os seres - tudo enfim
em Deus teve princípio e em Deus terá seu fim!"


Meu pai:- "Não sou capaz de ter um Deus senhor,
- sou rebelde... pagão... sou livre pensador!...
..................................................



II


O tempo há de passar... os anos não se cansam...
Novos filhos virão... novos pais hão de vir...
E esse caminhar, as idéias avançam
e a resposta há de estar por certo no Porvir!...



(Fonte:
"Meu Céu Interior", 1ª ed., set. de 1934.)



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