POESIAS DE JG DE ARAÚJO JORGE - 8

ORGULHOSOS
OS VERSOS QUE TE DOU
OUTONO
PAR CONSTANTE
PARA VOCÊ QUE NÃO CONHEÇO
PIEDADE



ORGULHOSOS

Orgulhoso que sou - mentindo inutilmente
a dizer que não te amo, a fingir não te ver,
e a guardar em meu peito esse desejo ardente...


Orgulhosa que tu és - e o teu orgulho é tanto
que finges não gostar de mim, e o teu sofrer
procuras esconder para encobrir teu pranto...


Orgulho triste o meu: esta imensa tortura
da incerteza em que vivo é a minha desventura...


Orgulho triste o teu: - sofrendo por querer...
- por um mero capricho... um estranho prazer...


Falemos de uma vez, os dois, sinceramente:
- põe no meu, teu olhar, e ao meu olhar procura
revelar sem receio o que a tua alma sente...


Confessa!... E acabará o orgulho entre nós dois...
- Se queres repartir por dois nossa ventura:
entrega-te primeiro e eu serei teu depois!...



OS VERSOS QUE TE DOU

Ouve estes versos que te dou, eu
os fiz hoje que sinto o coração contente
enquanto teu amor for meu somente,
- eu farei versos...e serei feliz...


E hei de fazê-los pela vida afora,
versos de sonho e de amor, e hei depois
relembrar o passado de nós dois...
- esse passado que começa agora...


Estes versos repletos de ternura são
versos meus, mas que são teus, também...
Sozinha, hás de escutá-los - sem ninguém que
possa perturbar vossa ventura...
.............................................


Quando o tempo branquear os teus cabelos
hás de um dia mais tarde, revivê-los nas
lembranças que a vida não desfez...


E ao lê-los...com saudade em tua dor...
- hás de rever, chorando, o nosso amor,
- hás de lembrar, também, de quem os fez...


Se nesse tempo eu já tiver partido e
outros versos quiseres - teu pedido deixa
ao lado da cruz para onde eu vou...


Quando lá, novamente, então tu fores,
pode colher do chão todas as flores, pois
são os versos de amor que ainda te dou!...



OUTONO

O outono já chegou - aos arrufos do vento
as folhas num desmaio embalam-se pelo ar...
- vão caindo... caindo... uma a uma, em desalento
e uma a uma, lentamente, vão no chão pousar...


O céu perdeu o azul - vestiu-se de cinzento
e envolveu na neblina a luz baça do luar...
- na alameda onde vou, de momento a momento,
há um gemido de folha a cair e a expirar...


O arvoredo transpira as carícias dos ninhos,
e o vento a cirandar na curva das estradas
eleva o folhareu no espaço em redemoinhos...


Há um córrego a levar as folhas secas em bando...
- e à aragem que soluça entre as ramas curvadas,
parece que o arvoredo em coro está chorando!...



PAR CONSTANTE

Dia dois... uma festa... Era o mês de janeiro...
Festa da minha vida...
A noite azul, brilhante...
Chegaste... E eu fui teu par... fui o teu par primeiro...
Dançamos... (como é bom lembrar aquele instante!)


Tu, tão linda, nem sei... Eu, feliz, petulante,
um pouco petulante, sim... mas cavalheiro...
Dançamos toda a noite... E fui teu par constante...
Nem só teu par constante... Eu fui teu par primeiro...


Quantas cousas te disse... E assim juntos, os dois,
com os meus olhos nos teus - afinal, quem diria
o mundo que ainda havia de surgir depois?


Quem diria ao nos ver, talvez, aquele instante,
que o nosso par feliz, constante aquele dia,
seria a vida inteira e sempre um par constante!



PARA VOCÊ QUE NÃO CONHEÇO

Sabe, acaso, o que é um verso? - É um pouco de uma vida,
- é o pedaço de um ser que em vão diz o que sente...
E o poeta? - É um sonhador, de coração ardente,
cuja alma para o mundo é sempre incompreendida...


Pois bem, vou dar-lhe um verso, e dou-o simplesmente
nesta folha que escrevo e que jamais foi lida...
Quando, a sós, ficar triste, e estiver esquecida,
releia-o, que eu distante hei de ficar contente...


Eu sinto - e não sei bem lhe responder por que,
- que se um dia você me visse - gostaria
de mim, como eu já gosto um pouco de você...


Mas pode ser mentira... É bem melhor portanto
que você me conheça apenas na poesia
se não quer ter comigo um grande desencanto!...



PIEDADE

Se encontrardes um dia, abandonado,
nos caminhos da vida, algum menino,
- magro, desfeito, o corpo desnudado
o olhar sem luz, o rosto ossudo e fino...


Se vierdes a encontrar esse coitado,
talvez da sorte, um triste peregrino...
- não negueis uma esmola ao desprezado
pelos duros reveses do destino...


Talvez ele não tenha um lar - talvez
o consolo e o calor de uns beijos dados
dos seus lábios, sem cor, na palidez...


Se encontrardes, pensei que o baço brilho
desses olhos de lágrimas molhados,
- podia ser também de um vosso filho!...



(Fonte:
"Meu Céu Interior", 1ª ed., set. de 1934.)



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