POESIAS DE JG DE ARAÚJO JORGE - 9

PRESSENTIMENTO
PROMESSA
QUARTA-FEIRA DE CINZAS
REGATO
RENÚNCIA
RETORNO INÚTIL
RUÍNAS



PRESSENTIMENTO

O fim do nosso amor pressenti - na agonia
das tuas próprias cartas, rápidas, pequenas...
- se nem tantas, com carinho imenso te escrevia
tão poucas me chegavam por reposta apenas...


Nas cartas que a sofrer, te escrevia, às dezenas
adiava a realidade sempre, dia a dia,
procurando iludir em vão as minhas penas
muito embora eu soubesse o quanto me iludia!


Hoje... já não foi mais surpresa para mim,
dizes (como quem tem piedade), que é melhor
não continuarmos mais... e tens razão: é o fim...


Há muito eu o esperava e o pressentia no ar...
Chegou... que hei de fazer?... Foi bom... Seria Pior
se ele não viesse nunca... e eu ficasse a esperar...



PROMESSA

Estou sentado aqui - eu te disse que vinha
sentar-me aqui depois que tu fosses embora...
Ainda ouço a tua voz murmurante e canora
jurando entre os meus beijos que serás só minha!


Olho ao redor: a estrada é a mesma, vai sozinha
serpenteando pela mata adentro, como outrora.
Só o encanto feliz que esta paisagem tinha
aos meus olhos sem alma, aos poucos se descora!


Nada mudou talvez... Ainda é a mesma, a varanda.
Há um bambual com seus verdes penachos para o ar
e o vento ao seu redor, com as folhas, faz ciranda...


Eu te disse que vinha, e vim... Neste momento
parece que só tu trocaste de lugar:
- fugiste dos meus braços para o pensamento!



QUARTA-FEIRA DE CINZAS

Toda a terra está envolta nas neblinas
e a friagem se difunde pelo espaço...
- longe se ouve, em cadência, passo a passo
o caminhar dos boêmios nas esquinas...


Pela sombra - as estrelas pequeninas
com sono, tem o olhar nevoento e baço...
No silêncio da noite ouço o compasso
do sereno a pingar das serpentinas...


Algum bando tardio passa adiante
- e deixa pela noite uma batida
de samba em agonia - estrebuchante...


Quarta-feira de cinzas já amanhece,
- mais outro carnaval em minha vida,
vida que há muito um carnaval parece!...



REGATO

A correr sem parar, contente, vais seguindo
na estrada do teu leito onde a fugir te esgueiras...
aqui, calmo e sereno; ali, nas corredeiras
veloz, o azul dos céus nas águas refletindo...


E a sorrir e a cantar, e cantando e sorrindo
avanças para o mar quer queiras quer não queiras,
- carregando em teu seio um quadro sempre lindo
renovado ao passar das águas marulheiras...


Vestido de cristal, nas noites, pelos campos,
das estrelas do céu, festivo tu te enfeitas
para a festa entre a luz dos loucos pirilampos...


E as águas que tu tens... Estas águas inquietas...
Rolando... a soluçar e a rir... parecem feitas,
- de pérolas do céu... de lágrimas de poetas!...



RENÚNCIA

Quero-te muito, muito - o nosso amor
é belo, bem o sei, mas não o mereço...
- da incerteza em que vivo não me esqueço,
- só da renúncia eu devo pois dispor...


Não passo de um ousado sonhador
nascido na pobreza - reconheço
que a riqueza dos versos não tem preço:
- o destino de um poeta é enganador...


Dividir meu viver, eu, pois, não quero...
Poderás amanhã vir maldizer
este amor que é a ilusão que mais venero...


Esquece... Esquece os sonhos que eu desfiz...
-Para o teu bem tu deves me esquecer
já que não posso te fazer feliz!...



RETORNO INÚTIL

Voltaste - e nos teus olhos novamente havia
aquela úmida luz que eu reconheço bem...
quiseste reavivar talvez minha agonia
e falaste em perdão... e choraste também...


"Não voltes! que terás na volta o meu desdém!"
falei-te... Mas sorriste do que eu te dizia...
Confiaste em meu amor e voltaste!: Pois bem
Já não há mais amor: - há indiferença fria...


Inútil, tua volta. O meu Ser já não sente,
Retorna ao teu amor, aquele grande amor
de que um dia falavas orgulhosamente...


Retorna! Porque em mim já nada encontrarás!
Depois da humilhação, depois de tanta dor,
Já não sou mais o mesmo... e nem te quero mais!



RUÍNAS

Quebrados pedestais... Estátuas mutiladas...
- escombros do esplendor da antiga arquitetura,
onde a história repousa envolta na moldura
do tempo, relembrando as páginas queimadas...


Colunas sustentando as cúpulas pesadas
de templos ancestrais - talhados na arte pura,
que o sopro destruidor dos tempos desfigura
na impassível mudez das eras sepultadas...


Pedaços do passado, esparsos, como à espera
de que o homem derrube os derradeiros muros
enquistados de limo e recoberto de hera...


E dos velhos salões, sem arcadas ovais,
- ainda pendem sem côr os quadros mais impuros
como baças visões de antigas bacanais!...



(Fonte:
"Meu Céu Interior", 1ª ed., set. de 1934.)



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