POESIAS DE MÁRIO QUINTANA - 4


ÍNDICE

O LUAR
SER E ESTAR
ENVELHECER
PEQUENO POEMA DIDÁTICO
POEMA OLHANDO UM MURO
ESTE QUARTO
COCKTAIL PARTY
UM VÔO DE ANDORINHA
Poesia sem título
FRASES DE MÁRIO QUINTANA



O LUAR

O luar, é a luz do Sol que está sonhando
O tempo não pára!
A saudade é que faz as coisas pararem no tempo...
...os verdadeiros versos não são para embalar,
mas para abalar...
A grande tristeza dos rios é não poderem levar a tua imagem...



SER E ESTAR

A nuvem, a asa, o vento,
a árvore, a pedra, o morto...


tudo o que está em movimento,
tudo o que está absorto...


aparente é esse alento
de vela rumando um porto


como aparente é o jazimento
de quem na terra achou conforto...


pois tudo o que é está imerso
neste respirar do universo - ora mais brando ora mais forte
porém sem pausa definida -


e curto é o prazo da vida...



ENVELHECER

Antes, todos os caminhos iam,
hoje, todos os caminhos vêm...
A casa é acolhedora, os livros poucos
E eu mesmo sirvo o chá para os fantasmas...


Silêncio, Solidão, Serenidade.


Quero morrer na selva de um país distante...
Quero morrer sozinho como um bicho!


Adeus, Cidade maldita.
Que lá se vai o Teu Poeta.


Adeus para sempre, Amigos...
Vou Sepultar-me no Céu!


E todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,


Eles passarão...
Eu Passarinho!



PEQUENO POEMA DIDÁTICO

O tempo é indivisível. Dize,
Qual o sentido do calendário?
Tombam as folhas e fica a árvore,
Contra o vento incerto e vário.


A vida é indivisível. Mesmo
A que se julga mais dispersa
E pertence a um eterno diálogo
A mais inconseqüente conversa


Todos os poemas são um mesmo poema,
Todos os porres são o mesmo porre,
Não é de uma vez que se morre...
Todas as horas são horas extremas!



POEMA OLHANDO UM MURO

Do
escuro do meu quarto
- imóvel como um felino, espio
a lagartixa imóvel sobre o muro: mal sabe ela
da sua presença ornamental, daquele
verde
intenso
na lividez mortal
da pedra... ah, nem sei eu também o que procuro, há tanto...
nesta minha eterna espreita!
Pertenço acaso à raça dos mutantes?
Ou
sou, talvez
- em meio às espantosas aparências de algum mundo estranho -
um espião que houvesse esquecido seu código, a sua sigla, tudo...
- menos
a gravidade da sua missão!



ESTE QUARTO
(para Guilhermino César)

Este quarto de enfermo, tão deserto
de tudo, pois nem livros eu já leio
e a própria vida eu a deixei no meio
como um romance que ficasse aberto...


que me importa este quarto, em que desperto
como se despertasse em quarto alheio?
Eu olho é o céu! imensamente perto,
o céu que me descansa como um seio.


Pois só o céu é que está perto, sim,
tão perto e tão amigo que parece
um grande olhar azul pousando em mim.


A morte deveria ser assim:
Um céu que pouco a pouco anoitecesse
e a gente nem soubesse que era o fim.



COCKTAIL PARTY
(para Eloí Callage)

Não tenho vergonha de dizer que estou triste,
Não dessa tristeza ignominiosa dos que, em vez de se matarem, fazem poemas:
Estou triste por que vocês são burros e feios
E não morrem nunca...
Minha alma assenta-se no cordão da calçada
E chora,
Olhando as poças barrentas que a chuva deixou.
Eu sigo adiante. Misturo-me a vocês. Acho vocês uns amores.
Na minha cara há um vasto sorriso pintado a vermelhão.
E trocamos brindes,
Acreditamos em tudo o que vem nos jornais.
Somos democratas e escravocratas.
Nossas almas? Sei lá!
Mas como são belos os filmes coloridos!
(Ainda mais os de assuntos bíblicos...)
Desce o crepúsculo
E, quando a primeira estrelinha ia refletir-se em todas as poças
d'água,
Acenderam-se de súbito os postes de iluminação!



UM VÔO DE ANDORINHA

Um vôo de andorinha
Deixa no ar o risco de um frêmito...
Que é isto, coração?! Fica aí, quietinho:
Chegou a idade de dormir
Mas
Quem é que pode parar os caminhos?
E os ricos cantando e correndo?
E as folhas ao vento? E os ninhos...
E a poesia...
A poesia como um seio nascendo.



Tão lenta e serena e bela e majestosa vai passando a vaca
Que, se fora na manhã dos tempos, de rosas a coroaria
A vaca natural e simples como a primeira canção A vaca, se cantasse,
Que cantaria?
Nada de óperas, que ela não é dessas, não!
Cantaria o gosto dos arroios bebidos de madrugada,
Tão diferente do gosto de pedra do meio-dia!
Cantaria o cheiro dos trevos machucados.
Ou, quando muito,
A longa, misteriosa vibração dos alambrados...
Mas nada de superaviões, tratores, êmbolos
E outros truques mecânicos!


Nota de Euro Oscar: Encontrei sem título esta poesia acima.



FRASES DE MÁRIO QUINTANA

A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.


A resposta certa, não importa nada: o essencial é que as perguntas estejam certas. (Em "Caderno H")


A saudade é o que faz as coisas pararem no Tempo.


Como seriam belas as estátuas eqüestres se constassem apenas dos cavalos!


Era um grande nome — ora que dúvida! Uma verdadeira glória. Um dia adoeceu, morreu, virou rua... E continuaram a pisar em cima dele.


Esquece todos os poemas que fizeste. Que cada poema seja o número um. (Em "Caderno H")


Mas por que datar um poema? Os poetas que põem datas nos seus poemas me lembram essas galinhas que carimbam os ovos... (Em "Caderno H")


O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso. (Em "Caderno H")


O que me impressiona, à vista de um macaco, não é que ele tenha sido nosso passado: é este pressentimento de que ele venha a ser nosso futuro. (Em "Caderno H")


Se eu amo o meu semelhante? Sim. Mas onde encontrar o meu semelhante? (Em "Caderno H")


Um poeta sofre três vezes: primeiro quando ele sente os seus versos, depois quando ele os escreve e, por último, quando os declamam. (Em "Caderno H")


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