POESIAS DE
MÁRIO DE SÁ CARNEIRO - 1

O POSTE TELEGRÁFICO
DISTANTE MELODIA



O POSTE TELEGRÁFICO

Er'alto, muito alto. Outr'ora, verdejante,
Viveu num pinheiral; foi um pinheiro. Tinha
No tronco erguido ao ar, ramagem, muita pinha,
E a seiva percorria o corpo do gigante.


Se o rapazito da vila, a chilrear, trepava
Pelos seus ramos, ele - avô bonacheirão -
Em vez de se zangar, até os ajudava,
De forma que nenhum vinha parar ao chão.


Em suma era feliz. Robusto, resistia
Ao vento, ao sol, à chuva, à neve, à tempestade;
Mas como nunca é eterna a f'licidade,
A golpes de machado ele tombou um dia.


Hoje é um poste liso. É esguio, é feio e forte,
Não tem vida nem seiva. Imóvel está ali
À beira dum trigal... Que triste a sua sorte
A árvore tornou-se em um imenso I...


No topo ele sustenta os fios da longa meada
Que, entrelaçando o mundo, ao mundo as novas leva:
«Paris 8, manhã: - Rostand doente. Neva.»
«Belgrado 22: - A Sérvia revoltada.»


As notícias banais e as novas d'importância;
Inventos, revol'ções, catástrofes e guerras;
Nos fios circula tudo. Os homens, numa ânsia,
Informam-se e assim 'stão perto as longes terras.
.................................................
Humildes postes, sois os fortes sustentáculos
Do aéreo condutor da vida universal;
A cobra gigantesca, o polvo colossal
Que mesmo no deserto alastra os seus tentáculos.


Se p.ª vós eu olho, esvai-se o horizonte,
A terra não tem fim... Caminho para a frente...
Um monte está ali... A vista salta o monte...
Percorro todo o mundo imaginariamente!...


Transporto-me a Paris. Passeio no boul'vard;
Num cabaret qualquer, pândego com cocottes...
Em Petersburgo estou. Niilistas aos magotes,
Escoam-se na sombra e tramam contra o Czar...


Atenas visitei... Nos ringues de Viena,
Me pavoneio agora... A Roma chego já...
Mas a Europa a mim parece-me pequena...
Vou a Jerusalém... Diviso o Sahará...


Ah! como te agradeço, ó rede telegrafica!
Viajo sem vintém, graças a ti sòmente...
Em menos dum minuto e muito facilmente,
Eu sei-me transportar da Oceania à África!...



Os fios não servem só p'ra minha fantasia
Por eles encanada, absorta viajar;
Também não servem só de noticiosa via:
Os pássaros nos fios costumam descansar.


E então que belo quadro! À luz do sol poente
Esfuma-se no ar uma fileira alada...
Num vôo lasso desce e ei-la empoleirada
Entoando num cicio um cântico dolente.


Na intenção genial, o que aprecio mais
Não é o que aproveita ao monstro «Humanidade»,
No socorro prestado a pobres animais,
Só nisso, é que eu encontro alguma utilidade.
.............................................
O fio serve de poiso à ave fatigada,
E o poste com saudade e com melancolia,
Recorda o pinheiral: Na sua ramaria
Pousava muita vez então a passarada.


Começa a recordar... Recorda toda a vida:
A terra em que nasceu... o velho rachador...
A sua netazinha, esperta e tão garrida...
O grande amor que teve a essa rósea flor...
..............................................
...Por isso quando vejo em noites de luar,
No macadam da estrada, a esguia silhueta
Dum poste magrizela, eu sinto-me poeta
E dos meus versos bano o chocho verbo «amar»...



DISTANTE MELODIA

Num sonho d´Íris morto a oiro e brasa,
Vêm-me lembranças doutro Tempo azul
Que me oscilava entre véus de tule -
Um tempo esguio e leve, um tempo-Asa.


Então os meus sentidos eram cores,
Nasciam num jardim as minhas Ânsias,
Havia na minha alma Outras Distâncias -
Distâncias que o segui-las era flores...


Caía Oiro se pensava Estrelas,
O luar batia sobre o meu alhear-me...
– Noites-lagoas, como éreis belas
Sob terraços-lis de recordar-Me...


Idade acorde d´Inter-sonho e Lua,
Onde as horas corriam sempre jade,
Onde a neblina era uma saudade,
E a luz – anseios de Princesa nua...


Balaústres de som, arcos de Amar,
Pontes de brilho, ogivas de perfume...
Domínio inexprimível d´Ópio e lume
Que nunca mais, em cor, hei-de habitar...


Tapetes de outras Pérsias mais Oriente...
Cortinados de Chinas mais marfim...
Áureos Templos de ritos de cetim...
Fontes correndo sombra, mansamente...


Zimbórios-panteões de nostalgias,
Catedrais de ser-Eu por sobre o mar...
Escadas de honra, escadas só, ao ar...
Novas Bizâncios-Alma, outras Turquias...


Lembranças fluidas... cinza de brocado...
Irrealidade anil que em mim ondeia...
– Ao meu redor eu sou Rei exilado,
Vagabundo dum sonho de sereia...

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