O Tao do Ocidente - 11


Palavras de Sabedoria:
5 e 6.


5 - "O livro traz erudição, mas não sabedoria."
Erudição e sabedoria. Erudição está ligada aos conhecimentos mundanos. Os livros em sua grande maioria refletem interesses de indivíduos ou grupos, alimentando até mesmo a vaidade do escritor. Como os livros fazem parte de nossa educação desde a infância, exercem uma enorme influência em nossa maneira de ser e pensar. Não é exagero afirmar, então, que uma pessoa que viveu e vive para os livros, terá uma forte tendência a resolver os problemas pelos modelos que neles encontra. Observe que estas pessoas costumam ter respostas padronizadas.

Não é por outra razão que os fanáticos políticos e religiosos, vociferam com um livro na mão. Este processo de cultura livresca, funciona de fora para dentro, do livro para o coração. Se você não utiliza seu bom senso, se não exerce conscientemente seu direito de crítica, acaba virando um robô cultural. Godard e Marx serão endeusados mesmo que você não entenda claramente suas proposições. Um famoso jornalista americano, chamado Charles Fort, dizia: "Julgamento suspenso, aceitação temporária, questionamento sempre".

Ele era tido como um indivíduo meio louco, pelas suas posições científicas pouco ortodoxas. Teve que fundar as Sociedades Fortianas, de sorte a ali defender seus princípios. Creio que o mais importante, não é se ele afirmava ser a terra quadrada ou oca como um balão. O mais importante é sua atitude em relação àqueles que eram escorraçados pela sociedade científica e por todos os que adotavam uma posição de intolerância. As Sociedades Fortianas, eram o abrigo das causas perdidas. Qualquer ideia que fosse ridicularizada, era aceita, em princípio, pela casa. Observe que o lema da Sociedade (julgamento suspenso...) apelava para a Justiça, para a tolerância e para o processo crítico. Isto não se aprende em livro nenhum.

Esta salada de frutas, mesmo que não seja do nosso agrado, demonstra que Fort podia até não ter grande cultura, mas sem dúvida tinha sabedoria. Você sabia que um analfabeto resolve seus problemas da mesma forma como um luminar resolve os dele? O processo mental é o mesmo. A única coisa que difere é o volume de informações, que no caso do indivíduo culto é tão grande que pode até atrapalhar a solução.

O homem simples, como dispõe de pouquíssimas informações, utiliza em muito maior escala, sem censura, as coisas que não se aprendem na escola: bom senso, lógica inata, intuição, experiência de vida. Quem ensinou isto a ele? Talvez a vida mesma, talvez algum dom. O fato é que ele não tem cultura, mas possui algo mais natural e muito mais importante: a sabedoria. Quando aqui falamos em sabedoria, estamos nos referindo portanto a um tipo de conhecimento que vem com o andamento da vida, com suas alegrias e percalços, com as soluções encontradas e testadas, com a observação de detalhes e até mesmo pela leitura...

A gente logo distingue um pomposo e tolo intelectual que acha que tudo sabe, de um verdadeiro sábio, modesto e cauteloso nas palavras e ações, pois sabe muito bem que seu conhecimento tem limitações. O erudito, se pega em virgulas e outras tolices; o sábio, ao contrário, é tolerante e aberto. Se você conhece um homem muito culto que não seja mesquinho, então ele é um sábio. Se alguém tido como sábio mostra orgulho e vaidade, então ele não passa de um ignorante. A cultura limita o homem, a sabedoria expande.

6 -"Não dê muito crédito à razão e à cultura."
Quando examinamos a questão da cultura, parece ter ficado claro que por si ela não apresenta grandes méritos, embora saibamos que a maioria das pessoas ainda fica muito impressionada quando se depara com um indivíduo culto. Confunde-se cultura com inteligência, com competência, com sabedoria é até com posição social. Cultura é um elemento de referência. É uma espécie de enciclopédia onde você vai buscar informações que o ajudam a solucionar alguma questão. Como a palavra cultura ficou intimamente ligada às coisas mais ou menos sofisticadas, o indivíduo que acumulou por diversos meios e razões, uma grande quantidade de conhecimentos, particularmente nas áreas artísticas e filosóficas, costuma se envaidecer de tal fato. E é aí que a coisa deixa de funcionar direito.

Os grandes problemas existenciais do ser humano, e que pedem uma resposta urgente, estãomuito mais ligados à sensibilidade e à intuição do que à cultura e à razão. Há um ditado popular que diz que "o coração tem razões que a própria razão desconhece" o que é uma grande verdade. As razões que a razão desconhece, são aqueles valores de que a ciência não faz caso: sensibilidade, intuição, iluminação, etc. Há como que uma supervalorização da cultura, em detrimento dos valores comuns a todos os homens. Infelizmente isto é tão verdadeiro que se torna difícil até mesmo argumentar. De qualquer forma, meditemos sobre estas palavras do sábio, e ao lidar com questões realmente sérias, que se dê uma chance ao não tão lógico e ao não tão racional. Quem sabe assim, reconheçamos que nossa vaidade está nos vendando os olhos às melhores soluções.


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Fonte do Texto

O Tao do Ocidente.
Direitos reservados © 2000.
P. G. Romano.
pgromano@hotmail.com
Agradeço a esse autor por permitir que esta edificante obra seja aqui veiculada, para o bem de todos.


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